quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A VIDA E OS SEUS MISTÉRIOS


Se tudo na vida é mistério até ser compreendido e integrado nos nossos saberes vivenciais, nós, HUMANIDADE, tendemos para o “Infinito” e seremos sempre um mistério até sermos definitivamente integrados “Nesse Infinito” a que vulgarmente chamamos de eternidade ou vida para além da morte física.
As descobertas científicas antes de serem experimentadas e vivenciadas pelos homens também eram um mistério que aos poucos se foi e vai desfazendo. Todavia, o “Ser Humano”, desvendando tantos mistérios, continuará sempre infinitamente misterioso, porque único ser criado semelhante ao seu misterioso Criador.
Assim sendo, as relações humanas, se não constantemente firmadas num íntimo relacionamento de cada homem ou mulher consigo mesmo no sentido melhorar constantemente as suas atitudes em colaboração constante e directa com o Supremo, seja essa colaboração feita como for e chamada à DIVINDADE o nome que chamar, essas relações não terão a mínima possibilidade de serem adequadas ao bem da própria pessoa ou da sociedade onde estiver inserida. O Homem é um ser social por excelência, mas o seu “SER” verdadeiramente “HOMEM” é muito complexo. Cada PESSOA terá de extrair, da sua própria essência, ou seja, dos genes recebidos dos seus progenitores que lhe conferem uma identidade própria única e irrepetível que a distingue de todos os outros seres, e ao mesmo tempo também da sociedade a partir sempre do seu meio ambiente natural (família e amigos), a aprendizagem que lhe convém para o seu melhor desenvolvimento integral que engloba tudo o referente ao seu corpo (visível) e mais ainda a tudo quanto os nossos sentidos não conseguem alcançar e que é sempre o mais importante... o mistério... (invisível e impalpável).
Ainda que gastemos a vida numa constante busca de nós mesmos e na maior ampliação possível de todas as nossas capacidades a todos os níveis ao ponto de chegarmos a pensar ter conseguido o máximo de paciência, compreensão, entendimento, fortaleza, espírito crítico, interioridade, aceitação... sei lá qual o número de qualidades que podemos enumerar... isso apenas poderá dar-nos a ideia, certa ou errada, de nos encontrarmos num maior ou menor nível de auto conhecimento e perfeição, mas não nos levará nunca a deixarmos de ser um mistério... para nós e para os outros. Quem nos rodeia nunca poderá ter acesso ao íntimo do nosso ser, pois por mais que lhes abramos todas as portas do coração e nos esforcemos por lhes mostrar claramente todas as razões das nossas atitudes de modo a poderem sorver o que realmente somos, nunca conseguirão descobrir devidamente a nossa realidade pessoal. A esta parte, teremos que lembrar que nós próprios somos um mais que gigante mistério para nós mesmos, pois mesmo com uma vida dignificada por um bom relacionamento social impregnado de boas acções ou imbuída de atitudes de oração, meditação, interiorização, autocrítica, doação e amor numa visão muito clara das nossas potencialidades e das realidades que nos circundam no desejo sincero de minorar o sofrimento alheio... num qualquer momento, inesperadamente, num abrir e fechar de olhos, sem saber como nem porquê, podemos voltar a cair em erros passados ou cometer outros ainda piores... situações que acabam por nos provocar humilhações e pedidos de desculpas diante dos homens e ao mesmo tempo necessidade premente de dobrar mais os joelhos perante a misericórdia de Deus, seja Ele chamado com o nome que for ou mesmo sob a afirmação categórica de que Ele não existe.
Nunca conseguiremos resistir à dor da queda nas nossas fraquezas e desvarios se não nos sentirmos acalentados por alguém que nos compreenda de onde sobressairá sempre, e acima de tudo, “ESSE SER ÍNTIMO E SUPERIOR”, tenha para nós que nome tiver.
Um bom ano de trabalho e possibilidades de emprego para quem ainda o não tem.

Hermínia Nadais
A publicar no Notícias de Cambra

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

"Nem só de pão vive o Homem"

Dotado de sentimento e razão, o ser humano pode tomar decisões fortes, firmes e duradoiras, conjugando harmoniosamente e com sabedoria estas duas forças ao longo de toda a sua vida que tem acontecimentos marcantes, uns mais que outros.
Depois de uma integração sociocultural, há a considerar, sem dúvida, a escolha acertada de uma profissão para um emprego que satisfaça as necessidades vitais, que dê independência económica. Para isso fazem-se os maiores esforços: fazem-se consultas a especialistas e testes psicotécnicos para facilitar a escolha de entre os mais variados cursos, pagam-se estudos, pedem-se empregos... É lógico e necessário que assim seja, pois o contrário é que seria inaceitável e incompreensível.
Mas "Nem só de pão vive o Homem!" Não estaremos nós, pais e educadores, a preocupar-nos apenas com uma das partes da vida de uma pessoa? Vejamos:
Antes de ir para o emprego, o jovem sai de casa: primeiro, da dos pais; depois, da dele. E a sua vida, tal como a nossa, rodará entre a casa e o trabalho, com alguns momentos de lazer. E as maiores dificuldades que irá sentir serão, sabemo-lo por experiência própria, a adaptação ao trabalho, patrão e colegas, e a partilha de vida com alguém. Para ser feliz e se sentir realizado, o jovem terá de manter sob controle todas estas situações, ininterruptamente. Para que tal aconteça terá de se conhecer muito bem, interiormente, com os seus defeitos e as suas qualidades... terá de saber analisar capazmente o comportamento das pessoas que o rodeiam para poder compreendê-las e viver em paz com elas e consigo mesmo... terá de saber distinguir uma paixão sufocante e passageira baseada num momento de prazer ou conhecimento superficial, de um amor verdadeiro, profundo, reflectido, que aceita o outro como ele é, com defeitos e qualidades, e está disposto a seguir em frente, contra tudo e contra todos, num projecto de vida em comum.
Enfim: terá que conciliar a estabilidade económica, que é imprescindível, com a estabilidade familiar e emocional, que também o é. No entanto, de uma maneira geral, esquecemos esta realidade.
Que fazemos nós, pais e educadores, pela estabilidade emocional dos nossos educandos? Que conceito lhes damos da vida em sociedade? Que conceito lhes damos da vida em família? Como os olhamos no tempo de namoro? Que lhes dizemos acerca dessa fase tão importante no decorrer das suas vidas?
Meter-se na vida deles, escolher por eles, empurrá-los para onde se quer... não!...
Orientá-los, aconselhá-los, falar-lhes numa vida de respeito mútuo, na dignidade dos valores humanos, no respeito pela vida... dar-lhes liberdade consciente e responsável... sim!...
Temos tendência a preocupar-nos muito com os meios de sobrevivência e estamos certos, mas esquecermo-nos duma coisa muito importante: o trabalho e a família conjugam-se na vida dos seres inseridos na sociedade; o mau ambiente de trabalho ou o fazer o que se não gosta, causa problemas, mas a pessoa acaba por se adaptar e arranjar outras compensações sem prejudicar ninguém, enquanto que no mau ambiente familiar todas as compensações que se possam encontrar vão sempre prejudicar, de qualquer forma, aos dois, e mais ainda aos filhos que não tiveram culpa de nascer.
Educadores e educandos, empenhados em ajudar a construir um mundo melhor, tenhamos presente o quanto é importante, com sentimento e razão, cada um saber o que fazer da própria vida, em espírito e verdade, demonstrando o maior respeito por si e pelo seu semelhante.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

terça-feira, 29 de julho de 2008

RECORDAR... PARA VIVER!...

Eu sei que quando um sentimento abrasa o coração, por mais que o queiramos encobrir, ele fura todos os poros do nosso ser! Mas... há momentos em que se torna urgente ir mais além, ainda que para isso tenhamos de pedir perdão a todos quantos não comungam das nossas ideias... é o que eu estou a fazer, antecipadamente.
Há meses atrás, ao receber a revista bimensal “Mensagem” que faz tempo assino, deparei com o anúncio das “Jornadas de Verão para Catequistas e outros Educadores”, um tipo de formação específica da Diocese do Porto, precisa e abrangente, que costumo frequentar a todo o custo. Escolhi o tema que mais me agradou e apressei-me a entregar a inscrição, não fosse, de algum modo, acabar por não poder ir para o tipo de formação que pretendia.
Chegou o momento aprazado. Contra o habitual... nem uma só pessoa da minha terra!... Não me senti isolada! Havia pessoas dos mais variados recantos da Diocese (e não só) a exercer as mais díspares profissões e com diferentes responsabilidades dentro das suas Paróquias, todas irmanadas de um mesmo desejo: espalhar, de algum modo, a Boa Nova de uma Vida de Amor.
O desejo avassalador de querer beber levou-me a tentar conseguir sofregamente abarcar todo o potencial de vivências que me rodearam naqueles três inesquecíveis dias.
Foram já as (minhas) IV Jornadas! Pela novidade pareceram-me as primeiras! Pela qualidade... afiguraram-se-me as melhores. A perfeição exige treino empenho e saber... um bem-haja a todos.
Não vou de modo algum referir-me à maravilhosa formação conseguida, mas à visão harmoniosa do conjunto de tudo quanto pude ver e sentir dentro das minhas limitações.
Para começar, de entre os formandos da sala 205... a única pessoa que cometeu erros fui eu... uma vez que não consegui ver nada de errado em mais ninguém... e éramos um grupo grande.
No final, Domingo, os olhos de todos estavam voltados para a Conferência de D. Manuel Clemente e Eucaristia por ele presidida.
A Conferência foi simplicíssima e eloquente, mas as palavras que mais me tocaram não foram pronunciadas!...
Estava lado a lado com a Drª Isabel (Presidente do Secretariado Diocesano de Catequese), falavam, gesticulavam e sorriam tão naturalmente como dois bons amigos; ele retirou graciosa e amavelmente das mãos de Isabel as cadeiras excedentes da mesa onde se encontravam e dispô-las no auditório para serem usadas pelos presentes, convidando-os a acomodarem-se de qualquer modo; a Drª precisou usar da palavra e ele retirou-se mansamente do ambão e encostou-se calmamente à parede; durante a Conferência falou de coisas muito importantes ilustradas com a partilha das experiências das coisas mais significativas e simples de sua própria vida.
Começaram os preparativos imediatos para a Eucaristia. Foi brilhante e enternecedora a forma como tudo se passou: a encenação do início, durante e no final da Eucaristia; a interacção entre o Sr Bispo e a Equipa do Secretariado (e os demais), alegre, confiante, coordenada, precisa, coesa, coerente, abrangente, presente, activa, organizada e simples. Todos os participantes... tão activos... tão presentes... Muito honestamente repeti para mim mesmo vezes sem conta aquela conhecida frase que se aplicava ao relacionamento de intimidade que havia entre os primeiros cristãos: “ Vede como eles se amam!”
Se me perguntarem se há “Céu”... (mesmo que mais não seja...) só por isto... terei que dizer que sim, pois principalmente nesta Eucaristia vivida na Casa de Vilar... senti-me num “Céu”... limitado... que deveria passar a não ter limites.
Mais uma vez, as minhas desculpas aos desinteressados! Que quem tem ouvidos... me entenda।

Hermínia Nadais

A publicar no “ Notícias de Cambra”

sábado, 26 de julho de 2008

TANTA INSTABILIDADE FAMILIAR...


O desenvolvimento sócio-económico e cultural da humanidade foi ao longo dos tempos, e ainda hoje é, urgente e necessário, mas traz consigo situações inesperadas e de difícil resolução. Desde os primórdios o Homem evoluíu constantemente, e sem parar, vai desbravando os limites máximos da sua capacidade para fazer novas e importantes descobertas no sentido de tornar a vida cada vez mais agradável e acolhedora. No desenrolar de todos esses acontecimentos, tem lutado contra inúmeros problemas inerentes às mais variadas situações: religiosas, políticas, umas isoladas outras em simultâneo; no entanto, há sempre problemas que se sobrepõem a outros. Na actualidade, de entre tantos, um dos mais alarmantes parece ser, sem dúvida, a instabilidade familiar.
Em grande parte das famílias há um "casa" e "descasa" aflitivo.
Por troca de desmedido prazer e bem-estar material perdem-se valores. A aceitação mútua dos seres tal qual se apresentam está a ser cada vez mais difícil. A incerteza do dia de amanhã torna-se uma preocupação constante.
Ao tomar conhecimento de uma nova união de vidas, início de vida a dois, ouvindo o alegre repicar do sino ou vendo os risonhos nubentes saindo do Cartório do Registo Civil, instintivamente surge uma evocação que demonstra claramente a preocupação de cada um em face do bem-estar de todos: "Que sejam felizes!"
E, porquê tal pedido em ocasião tão especial que parece levar a vida a um verdadeiro mar de rosas?!... É que vemos tanto casal em crise, que não queremos de forma alguma que esse seja mais um.
E que dizer de quando há um nascimento?
À partida, é uma grande alegria!... A vida que se transmitiu, faz com que os pais se revejam nos filhos e os avôs nos netos. Mas... por quanto tempo durará essa felicidade?!... Para quantos pais ela será para sempre? Quantas crianças nascidas no meio de tanto amor e entusiasmo crescerão harmoniosa e normalmente no aconchego da sua família nuclear e rodeadas do apoio e carinho da família alargada, conforme o sonho doirado do dia do nascimento? Do nascimento, ou casamento, pois quantas crianças existem cujas concepções foram desejadas pelos pais e já nascem com eles separados... ou quase.
Vivemos o tempo presente da melhor forma, é um facto. E o depois!...
O depois dependerá de cada um dos intervenientes no filme que é cada vida.
Parecem descabidas estas observações, mas são pertinentes.
Somos seres sociais. Tudo o que cada um fizer, quer queira quer não, tem influência na vida do outro. O exemplo, mau ou bom, marca uma pessoa.
Pelo facto, temos que ver o lado bom e mau das coisas que vão acontecendo nas vidas que nos rodeiam para que nos sirvam de lição e chamem à atenção para muitas realidades. E, ao constituir família, ninguém deve ter o ânimo leve, mas parar para pensar em todas as consequências que daí possam aparecer.
O ser humano é muito completo. Ele não pode de forma alguma reagir instintivamente, pois quando o faz, surgem problemas incontroláveis.
O instinto é rápido e impreciso, não pensa. É próprio dos animais irracionais, mas muitas vezes ilude os seres humanos quando estes se deixam enganar pelos sentimentalismos do coração.
O ser humano é dotado de sentimento e razão, e só quando estas duas forças se conjugam com sabedoria e confiança, as suas acções têm possibilidade de serem profundas e doradoiras. Saber-se isto pode ser algo de fácil, mas o pôr-se esse saber em prática, é muito difícil, pois mexe com o íntimo de cada um e obriga a muitas privações e sacrifícios. É difícil, mas não impossível, basta querer e ter força de vontade. Com a experiência conseguida na vida e pela vida, porque a vida é uma escola e é com ela que mais se aprende, veremos como.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

segunda-feira, 14 de julho de 2008

FÉRIAS... COM DIGNIDADE!...

Os meses de Julho e Agosto são os que mais nos lembram as tão almejadas férias!
Para alguns... muito poucos... são realmente a ocasião de ir ao encontro das mais diversas paragens com o coração cheio da esperança de encontrar momentos férteis de encanto e lazer; para outros, são meses de trabalho ainda mais intenso na ânsia de aproveitar ao máximo proventos extraordinários para recompor ou prover o escasso orçamento familiar de modo a poderem viver mais desafogados o resto do ano; para outros, a maior parte, estes meses não passam de dias de rotina habitual acrescentada de um maior calor pelo menos diurno.
Perante uma panorâmica tão variada das pessoas que nos cercam, em que os ricos são cada vez em menor número mas com as carteiras bem mais recheadas... os pobres aumentam cada vez mais em número e em situações de extrema pobreza... em que já se fala escancaradamente em fome... em que se pode provar que há fome por doenças contraídas baseadas na miséria e pela ocorrência de pedidos de socorro às várias instituições que trabalham no campo sócio caritativo... em que cada vez mais as referidas instituições têm de estar despertas principalmente para a chamada “pobreza envergonhada”, a que esconde a todo o custo as dificuldades sentidas e sofre horrivelmente... é mais que urgente revermos a nossa forma de viver.
É inadmissível falar-se tanto na minimização de problemas sociais... e que estes se nos apresentem cada vez maiores. É preciso pelo menos arranjar pistas que nos levem a tentar acabar de vez com este drama que terá de passar, irremediavelmente, por uma mudança radical de mentalidades.
Para alguns analistas muito razoáveis, a agudização desta situação deve-se a vários factores: a ânsia desmedida do ter que leva as pessoas a quererem comprar tudo quanto vêem ou lhes apetece; a fuga ao sacrifício, necessário e urgente na aceitação do trabalho que se nos apresenta e na sábia contenção das despesas; a busca permanente... e a permanente aceitação de facilidades exageradas principalmente as apresentadas pelas instituições bancárias que já não sabem mais que fazer a tanto lucro e oferecem dinheiro em condições nada razoáveis... lançando na ruína as pessoas mais carentes e incautas; a luta acérrima e desleal pelo poder, que leva a não olhar a meios para atingir fins no sentido de conquistar um lugar de destaque na sociedade; em suma, quase tudo se resume a um “querer mostrar-se superior parecendo ser aquilo que se não é”.
Depois, critica-se o Governo, as Autarquias, a Escola, as Instituições, os Industriais, os Comerciantes, os Patrões, os Empregados, os Amigos e até se arranjam muito mais “Inimigos”... critica-se “tudo” e criticam-se “todos”... normalmente porque, desta forma, não precisamos entrar no verdadeiro campo da crítica... a crítica pessoal à nossa maneira de viver que, cegamente, achamos ser sempre a melhor... porque os culpados dos nossos deslizes, canseiras e preocupações... vistos assim... serão sempre os outros.
Há muitas famílias que se deveriam sentir carentes e que vivem razoavelmente; há outras que não lhes interessa trabalhar... ou então gastam todo o dinheiro nos primeiros dias do mês e passam o resto do tempo a reclamar; há ainda outras que por mais que se esforcem o poço já é tão fundo que não conseguirão sair dele sem alguém que lhes deite a mão.
É hora de começarmos a entrar bem dentro de nós mesmos para podermos avaliar qual é a nossa verdadeira situação... uma forma de podermos ir ao encontro dos outros para ajudá-los... quando mais não for... por um bom exemplo de vida... que é a melhor forma de ensinar a viver... pois de sermões está toda a gente farta!
Desejo a todos um bom período de férias gozado com sabedoria e dignidade!

Hermínia Nadais
A publicar no “Notícias de Cambra”

quarta-feira, 9 de julho de 2008

OS PERIGOS DA SOCIEDADE

O tempo em que, genéricamente, a mulher andava, amargurada, atrás do marido, quase já faz parte do passado. Ainda há casos desses, mas os seus números vão diminuindo tão naturalmente que quase não se dá por isso.
O homem, mesmo sem perder os seus estatutos, reconhece o trabalho duplo da mulher e ajuda-a. O homem e a mulher, lado a lado, acabam por ter vida de trabalho dupla, pois ambos trabalham no emprego e em casa.
Analisando friamente estas novas situações, encontraremos, talvez, resposta para muitas perguntas que toda a gente pensa mas ninguém ousa fazer.
Depois de entregar os filhos a familiares, amas ou instituições, a mulher e o homem saem para os empregos. Sempre ou quase, estes, são em locais diferentes, e, por vezes, bem distanciados. Isto obriga a que, nas idas e regressos dos trabalhos, tenham de ser usados transportes diferentes: colectivos, boleias e veículos próprios que por vezes se multiplicam, há um para o homem e outro para a mulher.
O local de trabalho, conforme seja uma pequena ou grande empresa, é uma pequena ou maior sociedade, mas acaba por ser também uma família... uma segunda família, alargada, diferente, com regras de convivência diferentes, mas uma família. Criam-se muitas amizades: há interesses comuns que é preciso defender; situações em que há necessidade de ajuda e colaboração mútuas; tempos de entrada e saída... ida... e volta... em que se pode falar ou fazer muitas coisas, conviver... E por mais fortes e recatados que sejamos, há sempre um momento em que deixamos transparecer um pouquinho que seja do que nos anima ou aflige: gostos, desgostos, desejos, fraquezas, infelicidades ou alegrias... e começa de haver uma incontrolável partilha de vida que é necessária e útil, mas só quando orientada com sabedoria e precaução, o que na maior parte dos casos não acontece porque as pessoas não estão precavidas dos prejuízos irremediáveis que daí podem resultar.
Quer queiramos ou não, os nossos amigos e colegas de trabalho têm uma enorme influência em toda a nossa vida, para o bem ou para o mal. E ninguém foge a esta realidade. Mesmo nas pessoas que têm o apanágio de gozar de boa inteligência e primorosa educação a todos os níveis, aparecem com a maior facilidade inevitáves dramas. É que há muitas vivências comuns. As pessoas conhecem-se mutuamente... ou pensam que se conhecem, porque conhecer uma pessoa é muito difícil!... Depois, há a tentação de achar "os outros" e as "outras" melhores, mais atraentes e interessantes... E, quando menos pensam, e sem se darem conta, o erro acontece.
E que fazer? Ter vida sentimental dupla ou assumir a nova relação e deixar tudo para trás?
A meu ver, nestas circunstâncias, surgem duas maneiras distintas de agir e que estão directamente relacionadas com a psicologia genética de cada um, isto é, cada um age de forma diferente, porque é, defacto, diferente. O homem parece ter maior capacidade de se relacionar com mais de uma companheira, pelo menos durante algum tempo; a mulher, não, opta quase sempre só pela última relação por lhe parecer a melhor ou mais conveniente.
No final, para qualquer deles, a realidade da vida é bem outra... Na quase totalidade dos casos, as satisfações sentidas e o entendimento perfeito de quando se encontravam às fugidas, desaparece veloz como o vento quando se decidem a levar uma vida a dois, pois os problemas anteriores tendem a repetir-se... A desilusão é grande. Há quem volte atrás, há quem aguente. Mas, se o homem quiser recuar é quase sempre aceite pela mulher e recomeçam nova vida, o que raramente acontece quando o mau passo é dado pela mulher, pois nesse caso, costuma ser fatal.
Tudo se ajeita mais ou menos pelo melhor quando a descendência não existe, pois cada um assume os seus actos e o sofrimento de todos é menor; mas quando a há... paga por alto preço as desavenças e devaneios dos progenitores. Só quem não vive de perto com esses problemas pode passar indiferente.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A MULHER NA SOCIEDADE




A entrada da mulher no mercado do trabalho incutiu-lhe a auto-confiança, desenvolveu-lhe a auto-estima e todas as capacidades, enriqueceu-lhe os conhecimentos, conferiu-lhe um estatuto social aceitável, ao lado do homem, com igualdade de direitos e de deveres. Ora isto era tudo o que se pedia na luta pela libertação da mulher; portanto, tudo estava, agora, no caminho certo, poderíamos pensar, e com razão.
Mas, as coisas não são assim tão lineares. Em tudo o que se faz tem prós e contras, e este caso, de forma alguma podia ter sido uma excepção à regra. É que, quando se luta por alterar seja o que for, costuma ver-se antecipadamente ou de imediato todas as benesses que daí possam advir, mas as coisas menos boas ou difíceis de contornar para serem razoáveis ou melhores, ficam sempre para quando se está já no terreno... e com muitas asneiras feitas... pois só com o detectar dessas asneiras podemos tentar arranjar solução para elas, uma vez que, antes... é de todo impossível... por serem de todo desconhecidas e inimagináveis.
Esta maneira de falar parece descabida; no entanto, analisando bem, podemos averiguar as verdade que há nestas afirmações:
A mulher sai para trabalhar ao lado do homem; este, aceita, pois necessita de proventos para o seu lar. Com o aumento do custo de vida e decadência da agricultura de sobrevivência este é um mal necessário. Mas... chega a casa e fica descontrolado com os acontecimentos.
A educação que recebeu não foi adequada à época. A culpa não foi de ninguém, pois, ao tempo, não se previa que tal mudança fosse acontecer. O homem, não estava preparado para ajudar nas tarefas de casa. E o que é pior ainda é que, em grande parte dos casos não o queria fazer, porque os amigos, os próprios pais ou familiares, se se apercebessem de tal, chamavam-nos de maricas, o que magoava muito a quem se considerava superior para trabalhar numa actividade outrora específica da mulher. E, então, havia que sair até ao café, ler o jornal, jogar umas cartitas e beber uns copos... copos reforçados, pois, diga-se de verdade, só de pensar que a mulher estava ainda a trabalhar e ele a descansar... por não saber executar a tarefa, por má vontade, incapacidade ou fosse o que fosse... ela trabalhava... e ele descansava. Éra uma desumanidade masculina a toda a prova.
E depois?
A princípio, tudo foi bem, mas com o tempo, saturou. A mulher queixava-se, ralhava, barafustava, entrava em stress, ia ao médico... Ele, não aguentava a pressão; e, também, não queria dar o braço a torcer. Mas, acabava por ter de ir ao médico também.
A mulher, cansada e amargurada, não lhe dava as atenções a que ele estava habituado... e também não as recebia... Sentia-se mal, e começava a ter pensamentos esquisitos acerca do marido. E o pior é que, na maior parte dos casos, tinha razão. Ele começava a achá-la distante... e chata... E como ainda tinha tempo para as suas saídas e distracções... não conseguia dar valor ao seu cansaço e indisposição. E acabava por ir, então, procurar outra que o atendesse... mais livre... ajeitadinha, despreocupada, pois... quem sabe? Talvez fosse essa a sua única profissão. Mas ele não se ralava, ou fingia não ralar, o dinheiro chegava, a casa que esperasse. E não lhe fazia diferença nenhuma, era mais mulher... menos mulher. E despistava, ou tentava despistar a situação. E, enquanto que em casa a mulher aguentasse todas as torturas, tudo bem; de contrário, trocava-se pela outra... e pronto. Depois, se a outra não servisse... voltava-se para casa e estava feito.
A mulher, ao ver-se trocada, desfazia-se em lágrimas, e até ia atrás dele para não ficar sozinha... pensava nos filhos, na sua reputação...
Ia!... Esta minha descrição já está realmente ultrapassada. Apresentei-a, apenas, para contar todo o desenrolar da história. Isto acontecia no princípio da mudança, quando a mulher estava a iniciar o trabalho extra-lar. Agora, tudo é um tanto diferente, mas ainda muito mais perigoso e muito mais baralhado. Veremos porquê!...

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

domingo, 29 de junho de 2008

FÉRIAS REPOUSANTES!

Os dias continuam instáveis e motivadores de insegurança, mas a época é de férias! De uma ou outra forma devem ser bem aproveitadas! O ano é longo! O modo de viver cada vez mais difícil! É urgente recuperar forças! Forças físicas, morais, espirituais, todas as forças que nos comandam a vida no todo indivisível que cada um de nós é.
É imperativo que nos disponhamos a aprender a fazer férias repousantes.
As dificuldades sentidas nas bolsas das pessoas é grande! Enquanto se assiste a um aumento desmedido das fortunas já avultadas de meia dúzia de indivíduos em detrimento dos demais que estão cada vez mais pobres e com menos poder de compra, e muito menos do desejado encontro de alguns momentos aprazíveis de lazer, afigurasse-nos que esta época trará muito desencanto e desilusão. Temos que ser engenhosos para sairmos da crise o menos magoados possível.
Somos seres sociais por excelência, mas para aprimorar essa nossa faculdade não precisamos de procurar o ruído ensurdecedor de uma cidade engalanada! Bastar-nos-á o silêncio tranquilo de uma praia semi-deserta onde a frescura das ondas nos delicie o corpo e o canto do mar e das gaivotas nos enleve o espírito! Ou... por que não o desbravar dos montes maravilhosos que nos circundam, onde a brisa suave que balança as folhas enamoradas da doçura do sol nos acaricia o rosto, os passarinhos nos mimam com os seus chilreios e a mãe terra nos presenteia com tantas flores silvestres que nos deliciam o olfacto e preenchem o olhar?
Tanta beleza perdida... na busca de felicidades momentâneas que cansam em vez de dar repouso; nos atraem para fora de nós quando é urgentíssimo que olhemos bem dentro de nós mesmos onde geraremos ou não a felicidade; nos esvaziam bem as carteiras... e deixam ainda mais vazios os corações!...
Na ânsia desmedida de viver, acabámos por perder os melhores momentos da vida, porque não procuramos os lugares de silêncio acolhedor que promoverão o sossego, o descanso, a descoberta, a simplicidade, o sentido de estética, a imaginação, o amor à vida, a solidariedade, a partilha, a recuperação de energias, o verdadeiro encontro (connosco próprios, com o Infinito, com a família, com os amigos, com a natureza), a serenidade e a paz!
Não tenhamos ilusões! Os barulhos desnecessários baralham-nos! Temos que aprender a viver com o que temos, mas se tivermos possibilidade de escolher... que tenhamos a coragem de enveredar por algo que nos proteja e dignifique.
Santas férias!
A publicar no Notícias de Cambra
Hermínia Nadais

terça-feira, 24 de junho de 2008

A MULHER E O TRABALHO



Estávamos na época da decadência da agricultura de produção extensiva, único meio de subsistência da quase totalidade da população.
As actividades agrícolas começavam muitas vezes antes do romper da aurora e terminavam muito depois do pôr do sol. Árduas e pouco lucrativas, levadas a cabo num ambiente socializante, cheio de calma e alegria, perdidas na grandeza incomensurável das nossas aldeias, já não eram modo de satisfação para as necessidades da vida de ninguém.
A emigração, sempre presente na vida das gentes das nossas terras, e que as levava para "além do mar", começou agora a fazer-se, massivamente, mas para a Europa.
Para os que não enveredassem por esta louca aventura, estava chegada a hora da grande acorrência ao trabalho fabril, o outro recurso imediato a ser aproveitado pelos agricultores.
E então, os homens e mulheres que outrora trabalhavam lado a lado sob um brilhante Sol doirado e escutando os cantos suaves das avezinhas na estonteante beleza campestre, eram agora drasticamente separados pela distância assustadora de centenas e milhares de quilómetros, ou, então, pelo ruído ensurdecedor da maquinaria industrial, entre as paredes frias das fábricas que lhes garantiam os recursos de vida.
A mulher deixou de ser a "florzinha de estufa"; o "objecto de adorno ou prazer"; a "procriadora"; a "dona de casa"; a "protegida"... para não ser tocada por ninguém; ou... a "escarnecida" e "humilhada", que para nada mais servia do que para servir o homem e ser sua escrava e da família. Foi-lhe concedido o direito à instrução que até ali lhe havia sido negado, por ser julgado desnecessário. Agora, ela precisava de aprender como o homem, pois, tal como ele, tinha de enfrentar as rivalidades sociais e o mercado de trabalho.
Por força da tradicional distribuição de tarefas entre homem e mulher, esta, passou a ter uma vida profissional dupla, fazendo em casa toda a lide doméstica e exercendo ainda uma outra profissão. Ora, esta nova situação social alterou radicalmente a maneira de pensar e estar na vida tanto do homem como da mulher.
A meu ver, está aqui a génese de quase toda esta problemática sem limites com que a sociedade actual se defronta.
Até ali, o homem sempre teve mais ou menos possibilidades de ter grupos de amigos e ir além da localidade onde vivia, mas a socialização da mulher limitava-se à pequena comunidade do lugar, aldeia ou freguesia. A religião dava opiniões favoráveis para protecção à família e incitava à compreensão e aceitação das dificuldades que fossem criadas, principalmente à mulher. Na escola, o menino e a menina eram separados, por salas ou por carteiras, e nem nos recreios podiam brincar juntos. Os meios de Comunicação Social eram escassos e inseguros. As pessoas conheciam-se bem e tentavam respeitar-se mutuamente. Tudo era favorável a um ambiente de resignação no sofrimento, de aceitação de sacrifícios, de respeito... mas, neste caso, mais da mulher pelo homem... procedimento este que ainda hoje nos tenta perseguir e que com muita realidade podemos apelidar de aberração.
Ora, esta vidinha da mulher transformou-se por demais. Ela iniciou a sua actividade fora da comunidade de origem, familiares e vizinhos... Pode conhecer novos amigos, ouvir opiniões diferentes do habitual, alargar os seus conhecimentos... ver!... e ser vista!... observar!... e ser observada!...
Na escola ou na fábrica, em casa ou na sociedade, ao lado do homem, a mulher mostrou inúmeras capacidades de trabalho e resistência nas tribulações. Estas vivências foram favoráveis ao seu desenvolvimento pessoal e realização profissional em que lhe é concedido reconhecido mérito.
Agora, deixemos para a próxima uma análise mais profunda de todas estas situações, para ver o que poderemos aprender com elas... porque... a vida é uma escola!

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A “Feira” de Santo António!


Gosto muito da minha cidade, mas detesto confusões. Então, quando há confusões na minha cidade... tento a todo o custo desviar-me dela para não me meter nas suas confusões. Porém... como para quase tudo é preciso ir à cidade... às vezes não há como fugir. Assim, acabei mesmo por visitá-la na sua época mais turbulenta, as Festas de Santo António.
Já na preparação do evento achei graça ao desenrolar apressado de todas as obras com o tempo do avesso a não dar jeito nenhum aos trabalhadores que tiveram de se atarefar por demais para terem tudo pronto na hora aprazada. A esta parte, e graças às minhas fugas, acabei por não sentir muito na pele o terrível sufoco da falta de estacionamento... já habitual... agora acrescido da falta de espaço que as super-citadas obras, sem dó nem piedade, retiraram à cidade.
Ainda durante a referida preparação, numa passagem pelo Santuário do “Rei” das festas, o Santo António, como é óbvio, tive que atravessar a avenida principal. Acreditem que senti saudade do tempo em que as feiras dos nove e vinte e três eram feitas ali... pois os numerosos comerciantes apinhados no centro da via pareciam-me muito mais estarem numa feira do que numa festa. Claro que pagam bem a estadia... e toda a gente precisa de ganhar a vida... mas bugigangas e mais bugigangas... num período de tantas dificuldades financeiras... enfim!
Não sei bem como isto tudo irá terminar. Durante estas noites a cidade tem-se enchido de gente, umas noites mais, outras menos! Amanhã é a noite das marchas, espero que cantem as maravilhas do Santo e a devoção que lhe tem o nosso povo, como é habitual. Mas a verdade verdadinha... com toda a certeza... é que na tarde do dia 13... celebrar-se-á uma Eucaristia e realizar-se-á uma Procissão em honra do Santo... e o resto... será feira... muita feira... com as representações de muitos artistas, comes e bebes, distracções e brincadeira! E chamamos a isto Festas de Santo António!
Não tenho nada contra as festas. E penso mesmo que o Santo Antoninho deverá ficar muito feliz por ver toda esta gente assim, satisfeita, mas que para ele pouco vai sobrar... é uma certeza!
Um acto solene como este, a Festa do Padroeiro, deveria mexer profundamente no nosso interior, no sentido de aprendermos a viver com mais aprumo no nosso comportamento moral, espiritual e humano. Será que é o que vai acontecer? Dependerá de todos nós!
Aproveitemos toda esta alegria contagiante para nos tornarmos pelo menos um pouco mais parecidos com Santo António!
Certos de que um Santo triste é um triste Santo, sejamos “santos alegres”! É a única forma de tornarmos Vale de Cambra bem maior e mais próspera e do Santo António ficar muito mais feliz com todos nós!
Que Ele esteja sempre presente na nossa vida para nos ajudar a sermos o que realmente devemos ser em toda e qualquer circunstância!

A publicar no Notícias de Cambra
Hermínia Nadais