Uma escola de vida, de forma alguma pode prescindir da vida da escola, e vice-versa. Esta verdade já foi analisada o bastante para estar de todo compreendida e aceite. Mas, imaginar, investigar, perguntar o que será a vida da escola, é uma prática cada vez mais corrente. Por incrível que pareça, nestes casos, as respostas obtidas são omissas na quase totalidade das situações. E acontece assim porque os conceitos e as realidades da palavra "escola" confundem-se de tal forma que barram as respostas às mais múltiplas questões.Vulgarmente chamamos "escola" a um edifício onde circulam todos os intervenientes num determinado processo educativo, ou seja, onde circula uma comunidade escolar. Pode ter boas ou más condições, albergar crianças, jovens ou adultos, facilitar ou dificultar a vida de quem ali trabalha, mas só. Porque, o edifício não é "escola"!... É, sim, um espaço escolar. A escola necessita desse espaço para ser implantada... mas não é esse espaço, é a vida que ali jorra com abundância, que ali respira com toda a força de seus pulmões. É uma vida muito activa e muito fugaz. Dentro dos espaços escolares vive-se com uma intensidade tão forte que nem dá para compreender.
Comecemos por interiorizar um pouco desta vida reflectindo nalguns modelos de professores, "suportes da escola", cujos comportamentos podem bem fazer parte do conhecimento imediato de muitos leitores.
Os professores, se o são por vocação e não pela troca de conhecimentos por dinheiro, são uns eternos estudantes, ávidos de aprender. Podem apresentar claramente expressões físicas do cansaço causado pelo rodar dos anos, mas continuam jovens de espírito, à procura de novas descobertas, de novos saberes, e prontos a partilhar tudo com todos, principalmente com os seus alunos com os quais se misturam e confundem com a mais relativa facilidade.
E confundem-se, porquê?
Porque o professor não ensina, o professor tem uma formação específica que o leva a descobrir formas cada vez mais práticas para ajudar a aprender. O professor que se preza, vive, no dia a dia da sua profissão, o seu tempo de estudante. Ele valoriza o trabalho e o esforço do aluno, porque vai sendo, indefinidamente, um aluno... entre alunos. E desce às suas cadeiras para, juntos, desfazerem as dificuldades que existirem e descobrirem novas aprendizagens. Admite que não é portentor de toda a sabedoria e deixa transparecer ao aluno a realidade de que a vida é uma aprendizagem constante que devemos aproveitar até ao fim da sua existência.
Será alguma vergonha um professor admitir que o seu processo de enriquecimento de saberes é constante e inesgotável, e que muitas vezes "cresce" com o próprio aluno? E quanto se aprende com esses jovens, com essas crianças?!...
Um professor que assim não for, que não conseguir ser esse "estudante permanente e atento", é um ser parado no tempo e que o tempo ultrapassará com rapidez. Deixa de ser professor para ser disco riscado, que de ano para ano, repete a mesma matéria sem alteração de métodos ou mudança de atitudes. E o pior é que nestes casos, normalmente, julga-se muito importante, não aceita sugestões. Sobe ao estrado para falar, e o insucesso escolar... é sempre culpa do aluno. A relação ensino/aprendizagem perde toda a sua beleza e interesse, e cria-se uma situação de cansaço para as duas partes: para o professor porque, desfasado e obsoleto, não consegue cativar e despertar a atenção do aluno para os objectivos propostos para o seu desenvolvimento; para o aluno, porque se torna incapaz de se interessar pela aprendizagem, de se integrar na vida escolar, de conseguir aprender.
Que há alunos muito difíceis e com culpa no fraco rendimento escolar... sempre os houve, e haverá!... Mas, sejamos sinceros... Na maioria dos insucessos normais, embora haja cada vez mais agentes a procurar sofregamente meios para os combater, ainda teremos que admitir, com muita mágoa, que há intervenientes no processo educativo muito mais culpados do que a grande maioria os alunos. Quem, e porquê, é caso para pensar, continuando a análise de muitas coisas curiosas... e pouco visíveis.
Hermínia Nadais
Publicada no “Notícias de Cambra”


