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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Recordar… para vencer!




As férias acabaram para quem as pôde gozar… nem sequer começaram para quem a vida só tem preocupações e canseiras… e continuam indefinidamente para quem espera conseguir meios de sobrevivência, vendo o tempo levar consigo o subsídio de desemprego e sem saber o que poderá acontecer depois!
Este panorama é realmente triste e arrasador! E agrava-se muito mais quando acabamos por interiorizar que todos, sem exceção, temos alguma culpa em tudo quanto se está a passar por esse País e Europa fora.
Quando penso nos meus primeiros anos de vida e recordo as palavras e atitudes de meus pais e das pessoas com quem convivia, chego à conclusão de que o favoritismo exagerado que se foi dando nessas idades a quem nos sucedeu esteve e continua a estar na raiz de toda esta embaraçosa situação!
A fuga desenfreada ao calor do Sol que abrasava os corpos bronzeados curvados ao peso da enxada e da foicinha trouxe consigo um sem número de problemas tremendamente difíceis de ultrapassar. A cultura que se foi espalhando e adquirindo gradualmente foi e é muitíssimo preciosa, mas mostrou-se incapaz de acompanhar a interiorização das estruturas geradoras da responsabilidade inerente a um crescimento pessoal condigno, como aquele que existia quando o pão fabricado com o milho colhido nos campos acompanhava a sopa… e as galinhas, os ovos, os coelhos, o leite e as crias das vaquinhas iam fornecendo o dinheiro para um pouco de mercearia e bacalhau comprados na feira, para o carapau e a sardinha que a peixeira trazia na sua característica cestinha, e para o porquinho morto em Novembro/Dezembro, meses frios e propícios à salga caseira da carne, preparação de enchidos e à guarda de rojões na banha, provisões que deveriam chegar até ao final do ano! A marca do que se vestia naquele tempo dependia do dinheiro para o tecido e do jeito da costureira ou alfaiate, e normalmente havia a roupa do trabalho semanal e uma outra para sair ou ir à Missa ao Domingo! E para se conseguir alguma pecinha nova… era preciso esperar pelo Natal, pela Páscoa ou pelos dias festivos dos Santos Padroeiros que, enquanto fortaleciam a fé dos cristãos, iam animando um pouco mais as nossas aldeias. Eram estas vivências que tornavam as pessoas capazes de resistir a todas as intempéries, e a vencer as dificuldades mais amargas.
Criados num regime tão autoritário e com tantas privações, é muito natural que os pais e avós fizessem tudo para melhorar a vida dos seus filhos e netos… mas eram escusados tão magnos exageros!...
Há uma outra questão a considerar! Quando as pessoas estão muito habituadas a obedecer… não sabem usar da liberdade e acabam por transformá-la em anarquia… o que talvez tenha acontecido com a enorme maioria do povo, principalmente do português! De um Governo permanente que economizava por demais, mandava em tudo e tudo proibia… passamos a Governos que se sucedem uns aos outros, se esvaem em condescendências para amigos e se enchem cada vez mais de mordomias, ao ponto de, passados uns aninhos na governação… acabarem por ficar muito bem governados com reformas vitalícias chorudas! Por acaso… já alguma vez nos predispusemos a pensar em quantas pessoas já passaram pelo Governo e estão… assim… muito bem governadinhas?!... Talvez não!... E não vamos esperar que isto mude facilmente… porque os que agora governam têm que respeitar os que antes governaram… para que os que vierem a governar depois deles os respeitem a eles também!… E o povo… que os vai metendo lá no poleiro… anda mesmo desgovernado com tantos apertos que não sabe mais o que há-de fazer!... Valha-nos a decência e a moralidade… impregnadas de muito bom senso, altruísmo e Justiça Social! 
As crianças e jovens de hoje serão os governantes de amanhã! Ao lado da implementação da cultura urge incentivar à responsabilidade social! Os alunos não podem ser números, mas tratados como pessoas que são, diminuindo o número de alunos por turma em vez de o aumentar, pois quem tem passado pela Escola sabe muito bem onde vão dar estas e outras atitudes descabidas. Depois, é preciso preparar os jovens para um bom entendimento conjugal, de modo a restaurar e fortalecer os valores familiares para que as crianças e jovens possam aprender na família o caminho da verdadeira liberdade que está no exato cumprimento de todos os deveres e no querer para os outros o mesmo que queremos para nós, repartindo com quem precisa, não só os bens materiais, mas todos os saberes e modos de viver para que a Sociedade ultrapasse a crise e possa sentir-se mais realizada e feliz! 

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

“Canudo… não é sinónimo de sucesso”!


 Há dias esta frase soou nos meus ouvidos, e eu interiorizei-a como um enormíssimo palavrão! Mas acabei por verificar que não é!
Sucesso é sempre um acontecimento bem sucedido, é um êxito. Ora, para conseguirmos o  “Canudo”, ou seja, o Curso de que, com mais ou menos custo, conseguimos o Diploma/Canudo com maior ou menor valorização, é sempre um sinónimo de sucesso, não o podemos negar!
Mas… fora os “Canudos”, poderemos afirmar que vivemos num mundo de “Doutores”?! Talvez! E quem dera que o pudéssemos cada vez mais!
Quando se ouve a expressão “Doutor”, normalmente, estamos a falar nesses “Canudos” conseguidos por aqueles e aquelas que, numa série de anos seguidos ou interpolados, se embrenharam nas inúmeras páginas de livros, algures, nas mais diversas “Faculdades”, na busca do saber organizado e planeado por quem, tal como eles, se credenciou de forma a poder, assim, ser chamado de “Doutor” ou “Doutora”, designação vasta referida a médicos, engenheiros, professores, psicólogos, psiquiatras… um sem número de designações todas ligadas ao estudo especializado e apurado de algo.
O “Doutor” aparece, assim, especializado e apto a dominar uma determinada matéria.
Mas, no meio de tudo isto que muito nos confunde a cabeça, deixamos de parte o “Doutoramento” tirado a partir do quase nada, numa aprendizagem mecanizada, organizada e assente numa cuidada e aturada experiência de vida.
Há dias, ao presenciar uma cena de dois desses “Doutores” que a Universidade da Vida foi formando, fiquei perplexa.
No arranjo de uma casa, havia um montão de telhas para colocar no telhado. Por considerar a tarefa morosa e difícil… fiquei de olho neles!
Pouco tempo depois, ouvi os dois operários rir às gargalhadas, enquanto falavam no “tiro aos pratos”.  E apressei-me a ver do que se passava!
Então, o Leonel, sobre a relva do jardim, atirava com força, uma a uma, as telhas amontoadas… que o Luís, sobre a casa, apanhava com toda a perfeição e esmero. E em poucos minutos, o montão das telhas estava no local exacto, pronto a colocar no telhado!
Então perguntei onde arranjavam tanta força e certeza para não deixarem cair as telhas, ao que entre sorrisos, responderam à uma:
- É fácil, são os nossos exercícios de emagrecimento!
Fiquei um pouco sem palavras, depois do que continuei:
- Pois é! Realmente, sem sombra para dúvidas, cada um, na sua profissão, é “Doutor”!
E retirei-me a pensar que, perante tudo isto, poderemos concluir que, de facto, “Canudo”, quando se consegue, é sempre sinal de sucesso, mas poderá não o ser no desenrolar da vida, daí a expressão: “Canudo… não é sinónimo de sucesso”!
E quanto ao afirmar que vivemos num mundo de “Doutores”, na medida em que cada pessoa em particular e todas em geral tiverem uma boa formação profissional e forem responsáveis na execução dos seus trabalhos… vivemos num mundo de “Doutores”!
Então, como o saber não ocupa lugar, como aprender é uma necessidade do Ser Humano, e como a sociedade precisa tanto de “Canudos” como de “Doutores”… sejamos pródigos em ofertar-lhos!

(A publicar no Notícias de Cambra)

sábado, 17 de maio de 2008

FAMÍLIA E SOCIEDADE


Para muitos de nós é sobejamente reconhecido que uma pessoa, para o ser em plenitude, com força de vontade e auto domínio, necessita de uma boa integração familiar e social.
"Família" e "sociedade", são dois conceitos distintos e complementares, mas de certo modo iguais e mutuamente dependentes.
Quando falamos de família queremos referir-nos expressamente à chamada família nuclear, isto é, o casal e seus descendentes. De facto, é essa a primeira comunidade social de um recém-nascido, de uma pessoa. Segue-se-lhe a família alargada, ou seja, a comunidade formada pelo conjunto das várias famílias nucleares incluídas na árvore genealógica de que essa família nuclear faz parte. Muitas famílias formam uma aldeia, vila cidade... e há freguesias, concelhos, nação, nações... sociedades cada vez mais alargadas e dos mais divergentes hábitos, costumes, tradições... E, dentro dessas comunidades gerais, surgem muitas outras para a realização de cada um segundo as necessidades ou gosto pessoal: escolas, associações culturais, desportivas, religiosas, de caridade e assistência... E é um nunca mais acabar de instituições e associações da carácter social, colectividades que têm por fim a protecção, o desenvolvimento e a realização pessoal do indivíduo. À semelhança da família, cuja representação e gerência é efectuada pelo casal que a constituiu, as instituições também têm órgãos representativos e de gestão: numas esses órgãos, tal como nas famílias, são as próprias pessoas que as imaginaram e puseram a funcionar; noutras, é feita a escolha obedecendo a leis previamente estabelecidas.
Todas as instituições têm estatutos, regras de convivência social, são geridas e representadas por alguém. A família, a primeira de todas as instituições na nossa vida, tem leis de orientação e protecção bem definidas. Diferente de qualquer outra onde o elo de ligação dos associados pode apresentar múltiplos interesses, o conceito de família está assente no amor mútuo e ligado aos laços de sangue, à continuação da vida. Nenhuma outra instituição tem fim tão sublime, mas também nenhuma tem tanta responsabilidade na sociedade onde está inserida. Em qualquer outra instituição, entra quem quer ou necessita; na família, não é assim. A constituição de família, o viver em família, partilhar com alguém os desejos e ambições, faz parte de cada um de nós, é inato. É por esta necessidade de convívio e partilha de vida que há tantas famílias resultantes de ligações pouco aceites e menos habituais. Somos seres sociais, não fomos criados para viver sós. No entanto, numa família normal que é constituída livremente por duas pessoas complementares entre si, ligadas por amor, de cujo fruto nascem os filhos!... Filhos que não pedem para nascer... não têm culpa de nascer... mas, uma vez aparecidos, têm direito à vida, a uma vida digna, com amparo, protecção e orientação adequada.
Fala-se muito da protecção à família, mas quanto mais se fala em protecção, mais problemas familiares atingem a sociedade em geral. E o processo educativo das nossas crianças e jovens sofre as graves consequências dos problemas angustiantes dos pais. O caso é muito grave, gravíssimo mesmo. É caso para muita reflexão. Estou certa de que, se houvesse tempo e predisposição para pensar... muito ficaria diferente.
Queridos pais, aflitos com tantos problemas: Vamos parar um pouco para olhar profundamente as drásticas alterações da participação do homem e da mulher na vida familiar e social com as implicações que daí resultam; ver o que há de bom e mau; e, finalmente, tentar interiorizar e viver o que acharmos melhor para a felicidade de cada um de nós que será, sem dúvida, a felicidade de nós todos.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

terça-feira, 15 de abril de 2008

A FAMÍLIA NA SOCIEDADE

Começo por recordar o triplo enquadramento educacional que qualquer Homem terá de fazer para uma plena realização pessoal: a sua hereditariedade, valores familiares e do meio ambiente circundante.
Depois de abordado o tema da genética e de ser referenciado o enquadramento da família na base dos costumes e tradições de qualquer sociedade, é o momento de pensar nos problemas actuais e angustiantes que a afligem no decorrer dos nossos dias em que atravessa uma das maiores crises de todos os tempos.
A implementação das novas tecnologias e a drástica mudança de condições socio-económicas e culturais levou a uma grande modificação de mentalidades que, lentamente, se tem vindo a efectuar; e as necessidades prementes da vida actual alteraram radicalmente a família tradicional onde o homem e a mulher tinham tarefas específicas e bem definidas. Já vai ficando para trás o tempo em que as mulheres eram apenas esposas submissas e trabalhadoras, boas donas de casa e boas mães enquanto os homens angariavam o sustento da família. A mulher cada vez mais é chamada a trabalhar, ao lado do homem, não só para uma realização pessoal mas também porque, os proventos do seu trabalho além do de "doméstica" são necessários para o equilíbrio orçamental do agregado familiar. No entanto, ainda são muito poucos os homens que compreendem a extenuante e dupla actividade da mulher actual e a ajudam nas lides caseiras e na educação dos filhos de igual para igual. Fazem-no por desleixo, por mero egoísmo ou pelo receio de serem chamados de "maricas", preconceito que ainda persiste e estraga o bom ambiente familiar e social. E é absurdo pensar numa mudança muito rápida e fácil, pois ela está a fazer-se, sim, mas muito lentamente e com sérios problemas de adaptação tanto masculina como feminina. Daí tantos divórcios, uniões de facto, vidas a sós...
E nenhuma pessoa ou família com instabilidade económica, emocional, social, erradicada de prestígio, pode proporcionar aos descendentes os valores imprescindíveis ao desenvolvimento global e harmonioso da cada ser e, consequentemente, à construção de uma sociedade mais compreensiva e justa.
Um casal onde falte o dinheiro para cobrir as despesas essenciais à subsistência passa a fazer da resolução dessa questão o fim primordial da sua vida; se há instabilidade afectiva, a luta pela compreensão, carinho e atenção a que cada um tem direito absorve toda a sua razão de viver e todas as forças e estratégias possíveis são postas em prática para que seja recuperado o sossego, o amor e a paz familiar; e o que não é bem aceite pela sociedade acaba por fazer todos os esforços a fim de apresentar uma mudança significativa do seu comportamento ou estrato social no sentido de modificar a opinião pública a seu respeito.
É humano que isto aconteça. Mas, como podem dedicar-se ao aperfeiçoamento moral e observação de valores éticos, membros de famílias que tentam sobreviver com tantas carências económicas, afectivas e sociais?!...
Ninguém pode dar o que não tem. Como podem tantos pais dar uma vida agradável aos filhos se vivem envoltos num mar de amargura e incompreensão? Como podemos pedir valores morais a estômagos vazios, a braços cansados e a cabeças prestes a estoirar pela procura da resolução de tantos problemas?
Para uma pessoa se reconhecer tal qual é, assumir os seus defeitos e lutar contra eles, reconhecer e desenvolver as suas qualidades, necessita, antes de mais, ter condições razoáveis de vida. Então, sim, poderá tentar ter uma vida interior intensa e activa: muita coragem, força de vontade e auto domínio. Isto só poderá conseguir-se com um sólido ambiente familiar onde reine a harmonia, a compreensão e aceitação mútua, e se faça uma auto e hétero-reflexão frequente evidenciando as características inatas ou adquiridas de cada um para que cada qual possa crescer em amor, solidariedade, espírito crítico e verdade.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

sexta-feira, 4 de abril de 2008

FAMÍLIA E SOCIEDADE


Para muitos de nós é sobejamente reconhecido que uma pessoa, para o ser em plenitude, com força de vontade e auto domínio, necessita de uma boa integração familiar e social.
"Família" e "sociedade", são dois conceitos distintos e complementares, mas de certo modo iguais e mutuamente dependentes.
Quando falamos de família queremos referir-nos expressamente à chamada família nuclear, isto é, o casal e seus descendentes. De facto, é essa a primeira comunidade social de um recém nascido, de uma pessoa. Segue-se-lhe a família alargada, ou seja, a comunidade formada pelo conjunto das várias famílias nucleares incluídas na árvore genealógica de que essa família nuclear faz parte. Muitas famílias formam uma aldeia, vila cidade... e há freguesias, concelhos, nação, nações... sociedades cada vez mais alargadas e dos mais divergentes hábitos, costumes, tradições... E, dentro dessas comunidades gerais, surgem muitas outras para a realização de cada um segundo as necessidades ou gosto pessoal: escolas, associações culturais, desportivas, religiosas, de caridade e assistência... E é um nunca mais acabar de instituições e associações da carácter social, colectividades que têm por fim a protecção, o desenvolvimento e a realização pessoal do indivíduo. À semelhança da família, cuja representação e gerência é efectuada pelo casal que a constituiu, as instituições também têm órgãos representativos e de gestão: numas esses órgãos, tal como nas famílias, são as próprias pessoas que as imaginaram e puseram a funcionar; noutras, é feita a escolha obedecendo a leis previamente estabelecidas.
Todas as instituições têm estatutos, regras de convivência social, são geridas e representadas por alguém. A família, a primeira de todas as instituições na nossa vida, tem leis de orientação e protecção bem definidas. Diferente de qualquer outra onde o elo de ligação dos associados pode apresentar múltiplos interesses, o conceito de família está assente no amor mútuo e ligado aos laços de sangue, à continuação da vida. Nenhuma outra instituição tem fim tão sublime, mas também nenhuma tem tanta responsabilidade na sociedade onde está inserida. Em qualquer outra instituição, entra quem quer ou necessita; na família, não é assim. A constituição de família, o viver em família, partilhar com alguém os desejos e ambições, faz parte de cada um de nós, é inato. È por esta necessidade de convívio e partilha de vida que há tantas famílias resultantes de ligações pouco aceites e menos habituais. Somos seres sociais, não fomos criados para viver sós. No entanto, numa família normal que é constituída livremente por duas pessoas complementares entre si, ligadas por amor, de cujo fruto nascem os filhos!... Filhos que não pedem para nascer... não têm culpa de nascer... mas, uma vez aparecidos, têm direito à vida, a uma vida digna, com amparo, protecção e orientação adequada.
Fala-se muito da protecção à família, mas quanto mais se fala em protecção, mais problemas familiares atingem a sociedade em geral. E o processo educativo das nossas crianças e jovens sofre as graves consequências dos problemas angustiantes dos pais. O caso é muito grave, gravíssimo mesmo. É caso para muita reflexão. Estou certa de que, se houvesse tempo e predisposição para pensar... muito ficaria diferente.
Queridos pais, aflitos com tantos problemas: Vamos parar um pouco para olhar profundamente as drásticas alterações da participação do homem e da mulher na vida familiar e social com as implicações que daí resultam; ver o que há de bom e mau; e, finalmente, tentar interiorizar e viver o que acharmos melhor para a felicidade de cada um de nós que será, sem dúvida, a felicidade de nós todos.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

domingo, 23 de março de 2008

A sociedade e a família





No desenvolvimento sociocultural do indívíduo é imperativo a existência da Escola, pois a Escola, "fruto das nossas vivências diárias", e a Escola, "Instituição", numa intercomunicação activa, completam as aprendizagens efectuadas por cada ser ao longo da sua existência.
O limiar da aprendizagem a efectuar é uma incógnita. O primeiro professor de uma criança, melhor, de um recém-nascido, ou de um ser que ainda nem sequer nasceu são os seus progenitores; depois, os restantes familiares e pessoas próximas. Se assim não fosse, como se justificaria a existência de tantos "sábios" analfabetos num passado ainda não muito remoto?
Na sociedade, quer queiramos ou não, todos, sem excepção, somos eternamente professores... e eternamente alunos... Naturalmente vamos construindo e solidificando a nossa aprendizagem com as atitudes dos outros e levando os outros a uma alteração comportamental assente na maior ou menor visualização e interiorização do exemplo a tirar das acções que vamos praticando.
Em face do exposto, surge a questão que, em uníssono, devemos proclamar:
-Como poderemos educar-nos, para podermos educar os que nos rodeiam?
De uma maneira geral, os problemas da Educação são colocados à Escola, onde trabalham os "professores profissionais" com a missão exclusiva de "Educar". A culpa das irreverências cometidas pelas crianças e jovens recai, acima de tudo, sobre o Sistema Educativo; depois, sobre a família, uma vez que grande parte dos nossos educandos provém de famílias com graves sequelas; o Meio Social também é lembrado, mas no final, e com muitas reticências. É que a "Sociedade", somos todos nós, e é difícil admitirmo-nos como culpados das infracções cometidas por essa "Sociedade" de que somos parte integrante.
Qualquer Homem é fruto da sua genética, ambiente familiar e meio socio-económico e cultural circundante; e para ser "Homem" em "plenitude", terá que viver de acordo com este triplo enquadramento extraindo dele todo o potencial necessário à sua realização pessoal e inserção social.
Não é tarefa fácil. Vamos desenvolver um pouco o primeiro ponto invocado.
A hereditariedade do ser, marca-o, para o bem, ou para o mal... Por mais que queiramos fugir desta realidade, ela persegue-nos indefinidamente.
A nível de Instituições Escolares ou outras Instituições Sociais, muito se tem feito para minorar o efeito nocivo da criação de semelhanças comportamentais entre pessoas oriundas das mesmas famílias; mas, mesmo assim, o filho de pais considerados "marginais" nem sempre é tido em parceria com o filho dos considerados "pessoas de bem". E, quando não, aparece "o certo" ou "o descalabro" de alguns provérbios populares:
-"Quem sai aos seus não degenera"; "a acha sai ao madeiro"; "filho de burro sai cavalo"; "filho de peixe sabe nadar"... que se aplicam muitas vezes para justificar a observação do bom ou mau procedimento das acções praticadas.
Quaisquer destas expressões são muito fáceis de admitir pelos sujeitos observados quando trazem consigo as boas qualidades que os seus progenitores possuíam; mas se se trata de algo de mau, normalmente, não são aceites pela pessoa a quem o provérbio se refere. E o mais grave é que, pedagogicamente falando, pode marcar o indivíduo pelo lado oposto, uma vez que o comportamento dos filhos nem sempre é como o dos pais, pois a sua educação não dependeu exclusivamente deles mas do triplo enquadramento supracitado que pode, de certo modo, mudar radicalmente as coisas.
Baseados nestes factos há outros provérbios que dizem:
-"Num bom pano cai uma nódoa"; "de uma boa geração sai uma (má) mulher ou um ladrão"...
Pela prática, sabemos que todos os provérbios apresentados descrevem puras e autenticas verdades em situações pontuais. A voz do povo é forte! A sabedoria popular é muito perspicaz e oportuna, tem sempre resposta para todas as situações.
E onde está a sabedoria popular? Quem é o povo?
O povo são as pessoas dispersas pelas mais díspares povoações. A sabedoria popular está nos seus conhecimentos empíricos, nos seus costumes cheios de sentido prático e ricos de experiência.
Onde está a génese desse povo? Onde é praticada e cultivada a sua sabedoria?
A génese de um povo está na sua constituição familiar que, sem dar por isso, transmite cabalmente a sua cultura e tradição até ao mais pequeno pormenor. Ao falar-se de um povo fala-se, indubitavelmente, das famílias por que esse povo é constituído, sejam essas famílias constituídas da forma que forem. As alterações de comportamentos sociais partem sempre da mudança de atitudes no seio familiar. E quando as famílias não têm as condições necessárias às mudanças desejadas, os atropelos surgem... o inesperado acontece!... E a sociedade, família alargada, passa a viver debaixo do jugo do provérbio popular que diz: "Casa onde não há pão todos ralham... e ninguém tem razão!"
Mas nada pode ser feito de um dia para o outro। A interiorização das novas atitudes a pôr em prática é lenta e tem de ser muito bem apresentada por alguns e muito bem compreendida e acatada por todos. Por todos, digo, porque os que apresentam soluções ou metas a seguir com segurança são os que mais têm que compreender as controvérsias que as suas palavras criam e de saber esperar, pacientemente, pelo fruto do seu árduo trabalho cujos resultados virão, sim, mas muito mais tarde...

Hermínia Nadais

Publicada no Notícias de Cambra