A entrada da mulher no mercado do trabalho incutiu-lhe a auto-confiança, desenvolveu-lhe a auto-estima e todas as capacidades, enriqueceu-lhe os conhecimentos, conferiu-lhe um estatuto social aceitável, ao lado do homem, com igualdade de direitos e de deveres. Ora isto era tudo o que se pedia na luta pela libertação da mulher; portanto, tudo estava, agora, no caminho certo, poderíamos pensar, e com razão.
Mas, as coisas não são assim tão lineares. Em tudo o que se faz tem prós e contras, e este caso, de forma alguma podia ter sido uma excepção à regra. É que, quando se luta por alterar seja o que for, costuma ver-se antecipadamente ou de imediato todas as benesses que daí possam advir, mas as coisas menos boas ou difíceis de contornar para serem razoáveis ou melhores, ficam sempre para quando se está já no terreno... e com muitas asneiras feitas... pois só com o detectar dessas asneiras podemos tentar arranjar solução para elas, uma vez que, antes... é de todo impossível... por serem de todo desconhecidas e inimagináveis.
Esta maneira de falar parece descabida; no entanto, analisando bem, podemos averiguar as verdade que há nestas afirmações:
A mulher sai para trabalhar ao lado do homem; este, aceita, pois necessita de proventos para o seu lar. Com o aumento do custo de vida e decadência da agricultura de sobrevivência este é um mal necessário. Mas... chega a casa e fica descontrolado com os acontecimentos.
A educação que recebeu não foi adequada à época. A culpa não foi de ninguém, pois, ao tempo, não se previa que tal mudança fosse acontecer. O homem, não estava preparado para ajudar nas tarefas de casa. E o que é pior ainda é que, em grande parte dos casos não o queria fazer, porque os amigos, os próprios pais ou familiares, se se apercebessem de tal, chamavam-nos de maricas, o que magoava muito a quem se considerava superior para trabalhar numa actividade outrora específica da mulher. E, então, havia que sair até ao café, ler o jornal, jogar umas cartitas e beber uns copos... copos reforçados, pois, diga-se de verdade, só de pensar que a mulher estava ainda a trabalhar e ele a descansar... por não saber executar a tarefa, por má vontade, incapacidade ou fosse o que fosse... ela trabalhava... e ele descansava. Éra uma desumanidade masculina a toda a prova.
E depois?
A princípio, tudo foi bem, mas com o tempo, saturou. A mulher queixava-se, ralhava, barafustava, entrava em stress, ia ao médico... Ele, não aguentava a pressão; e, também, não queria dar o braço a torcer. Mas, acabava por ter de ir ao médico também.
A mulher, cansada e amargurada, não lhe dava as atenções a que ele estava habituado... e também não as recebia... Sentia-se mal, e começava a ter pensamentos esquisitos acerca do marido. E o pior é que, na maior parte dos casos, tinha razão. Ele começava a achá-la distante... e chata... E como ainda tinha tempo para as suas saídas e distracções... não conseguia dar valor ao seu cansaço e indisposição. E acabava por ir, então, procurar outra que o atendesse... mais livre... ajeitadinha, despreocupada, pois... quem sabe? Talvez fosse essa a sua única profissão. Mas ele não se ralava, ou fingia não ralar, o dinheiro chegava, a casa que esperasse. E não lhe fazia diferença nenhuma, era mais mulher... menos mulher. E despistava, ou tentava despistar a situação. E, enquanto que em casa a mulher aguentasse todas as torturas, tudo bem; de contrário, trocava-se pela outra... e pronto. Depois, se a outra não servisse... voltava-se para casa e estava feito.
A mulher, ao ver-se trocada, desfazia-se em lágrimas, e até ia atrás dele para não ficar sozinha... pensava nos filhos, na sua reputação...
Ia!... Esta minha descrição já está realmente ultrapassada. Apresentei-a, apenas, para contar todo o desenrolar da história. Isto acontecia no princípio da mudança, quando a mulher estava a iniciar o trabalho extra-lar. Agora, tudo é um tanto diferente, mas ainda muito mais perigoso e muito mais baralhado. Veremos porquê!...
Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra
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sexta-feira, 4 de julho de 2008
A MULHER NA SOCIEDADE
terça-feira, 24 de junho de 2008
A MULHER E O TRABALHO

Estávamos na época da decadência da agricultura de produção extensiva, único meio de subsistência da quase totalidade da população.
As actividades agrícolas começavam muitas vezes antes do romper da aurora e terminavam muito depois do pôr do sol. Árduas e pouco lucrativas, levadas a cabo num ambiente socializante, cheio de calma e alegria, perdidas na grandeza incomensurável das nossas aldeias, já não eram modo de satisfação para as necessidades da vida de ninguém.
A emigração, sempre presente na vida das gentes das nossas terras, e que as levava para "além do mar", começou agora a fazer-se, massivamente, mas para a Europa.
Para os que não enveredassem por esta louca aventura, estava chegada a hora da grande acorrência ao trabalho fabril, o outro recurso imediato a ser aproveitado pelos agricultores.
E então, os homens e mulheres que outrora trabalhavam lado a lado sob um brilhante Sol doirado e escutando os cantos suaves das avezinhas na estonteante beleza campestre, eram agora drasticamente separados pela distância assustadora de centenas e milhares de quilómetros, ou, então, pelo ruído ensurdecedor da maquinaria industrial, entre as paredes frias das fábricas que lhes garantiam os recursos de vida.
A mulher deixou de ser a "florzinha de estufa"; o "objecto de adorno ou prazer"; a "procriadora"; a "dona de casa"; a "protegida"... para não ser tocada por ninguém; ou... a "escarnecida" e "humilhada", que para nada mais servia do que para servir o homem e ser sua escrava e da família. Foi-lhe concedido o direito à instrução que até ali lhe havia sido negado, por ser julgado desnecessário. Agora, ela precisava de aprender como o homem, pois, tal como ele, tinha de enfrentar as rivalidades sociais e o mercado de trabalho.
Por força da tradicional distribuição de tarefas entre homem e mulher, esta, passou a ter uma vida profissional dupla, fazendo em casa toda a lide doméstica e exercendo ainda uma outra profissão. Ora, esta nova situação social alterou radicalmente a maneira de pensar e estar na vida tanto do homem como da mulher.
A meu ver, está aqui a génese de quase toda esta problemática sem limites com que a sociedade actual se defronta.
Até ali, o homem sempre teve mais ou menos possibilidades de ter grupos de amigos e ir além da localidade onde vivia, mas a socialização da mulher limitava-se à pequena comunidade do lugar, aldeia ou freguesia. A religião dava opiniões favoráveis para protecção à família e incitava à compreensão e aceitação das dificuldades que fossem criadas, principalmente à mulher. Na escola, o menino e a menina eram separados, por salas ou por carteiras, e nem nos recreios podiam brincar juntos. Os meios de Comunicação Social eram escassos e inseguros. As pessoas conheciam-se bem e tentavam respeitar-se mutuamente. Tudo era favorável a um ambiente de resignação no sofrimento, de aceitação de sacrifícios, de respeito... mas, neste caso, mais da mulher pelo homem... procedimento este que ainda hoje nos tenta perseguir e que com muita realidade podemos apelidar de aberração.
Ora, esta vidinha da mulher transformou-se por demais. Ela iniciou a sua actividade fora da comunidade de origem, familiares e vizinhos... Pode conhecer novos amigos, ouvir opiniões diferentes do habitual, alargar os seus conhecimentos... ver!... e ser vista!... observar!... e ser observada!...
Na escola ou na fábrica, em casa ou na sociedade, ao lado do homem, a mulher mostrou inúmeras capacidades de trabalho e resistência nas tribulações. Estas vivências foram favoráveis ao seu desenvolvimento pessoal e realização profissional em que lhe é concedido reconhecido mérito.
Agora, deixemos para a próxima uma análise mais profunda de todas estas situações, para ver o que poderemos aprender com elas... porque... a vida é uma escola!
Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra
quinta-feira, 5 de junho de 2008
O TEMPO DE MUDANÇA

O processo da integração da mulher na vida de trabalho fora do lar trouxe à família um sem número de problemas de difícil e remota solução.
Foi um acontecimento inadiável face às exigências das dificuldades económicas familiares sempre crescentes e que a mulher, desta forma, ajuda a superar; e também urgente para o reconhecimento das suas faculdades que são diferentes, como é óbvio, mas em nada inferiores às do homem.
Ao serem criados homens e mulheres, para poderem viver juntos harmoniosamente, foi-lhes dado o dom da complementaridade. Se são complementares, de forma alguma podem ser iguais. E é neste facto que residem as grandes diferenças. E nenhum pode, com razão, julgar-se mais que o outro. Agora, já podemos proclamar categoricamente esta verdade. Mas ainda há pouco, por meras convenções sociais e por razões alheias à vontade de cada um, era inadmissível fazer tal afirmação. Não porque alguém fosse culpado, mas porque a vida social estava talhada assim e ninguém se atrevia a modificar as coisas.
Mas, como tudo tem o momento certo, chegou a hora da mudança.
A passos lentos, a vida da sociedade foi ficando diferente, e não se sabe onde e como tudo irá parar.
Com as enormes disparidades no comportamento social de cada um, homem ou mulher, em relação a esse passado tão próximo e que nos deixou traços indeléveis e marcas muito profundas, sem um acompanhamento capaz que não podia de forma alguma existir por ser de todo impensável pelo desconhecido do desenrolar das situações, estamos a atravessar uma das piores fases de integração sócio-familiar de todos os tempos.
E, porquê?
Este tem sido tema para inúmeras reflexões, mas nunca será demais pensar de novo:
Ao longo dos tempos, através de gerações a perder de conta, a mulher foi a fiel depositária das canseiras da educação e criação dos filhos e da lide doméstica com todas as suas implicações e cuidados...
O homem, considerado o sexo forte, tratava da orientação da família e seus haveres e da angariação do seu sustento. A mulher devia-lhe obediência e respeito... e tinha de aceitar e compreender todas as suas ordens, pedidos, e mesmo as infidelidades que até eram consideradas normais... pois o homem não podia viver de um outro modo... dizia-se.
O homem andava mais nos negócios e campo, e a mulher, além do trabalho da casa, ajudava-o nessas tarefas... e ali criavam os filhos que desde cedo se habituavam àquelas canseiras. Mesmo nas famílias mais abastadas, nas grandes herdades, a cena não era muito diferente. Os grandes senhores, estavam rodeados de trabalhadores, mas viviam também dos frutos que as terras davam.
Nestas famílias, havia as mulheres serviçais a quem na maior parte dos casos era negada a constituição de família ao lado das senhoras patroas que, pouco ou nada mais eram do que objectos de adorno e procriação dos grandes senhores que as dominavam, a elas, e a todos os que viviam dentro das suas propriedades. A diferença entre estas duas condições de mulher é que, enquanto uma vivia servindo os seus patrões, a outra era servida pelos seus criados e tinha que obedecer e servir ao seu marido, senhor absoluto de toda aquela complicada sociedade doméstica.
Em qualquer dos casos descritos, era negada à mulher qualquer tomada de posição face ao que quer que fosse. A servilidade da mulher, em geral, era cega e escravizante.
Mas, os campos e as pequenas comunidades artesanais começaram a não assegurar a sobrevivência dos que deles viviam e foram cedendo lugar ao aparecimento de novas indústrias onde os homens arranjavam emprego deixando as mulheres nas tarefas de casa e amanho da terra. Juntavam os seus proventos, mas não eram o suficiente.
A hora de mudança de atitudes comportamentais do homem e da mulher estava iminente, não havia outro remédio.
Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra
