sexta-feira, 4 de julho de 2008

A MULHER NA SOCIEDADE




A entrada da mulher no mercado do trabalho incutiu-lhe a auto-confiança, desenvolveu-lhe a auto-estima e todas as capacidades, enriqueceu-lhe os conhecimentos, conferiu-lhe um estatuto social aceitável, ao lado do homem, com igualdade de direitos e de deveres. Ora isto era tudo o que se pedia na luta pela libertação da mulher; portanto, tudo estava, agora, no caminho certo, poderíamos pensar, e com razão.
Mas, as coisas não são assim tão lineares. Em tudo o que se faz tem prós e contras, e este caso, de forma alguma podia ter sido uma excepção à regra. É que, quando se luta por alterar seja o que for, costuma ver-se antecipadamente ou de imediato todas as benesses que daí possam advir, mas as coisas menos boas ou difíceis de contornar para serem razoáveis ou melhores, ficam sempre para quando se está já no terreno... e com muitas asneiras feitas... pois só com o detectar dessas asneiras podemos tentar arranjar solução para elas, uma vez que, antes... é de todo impossível... por serem de todo desconhecidas e inimagináveis.
Esta maneira de falar parece descabida; no entanto, analisando bem, podemos averiguar as verdade que há nestas afirmações:
A mulher sai para trabalhar ao lado do homem; este, aceita, pois necessita de proventos para o seu lar. Com o aumento do custo de vida e decadência da agricultura de sobrevivência este é um mal necessário. Mas... chega a casa e fica descontrolado com os acontecimentos.
A educação que recebeu não foi adequada à época. A culpa não foi de ninguém, pois, ao tempo, não se previa que tal mudança fosse acontecer. O homem, não estava preparado para ajudar nas tarefas de casa. E o que é pior ainda é que, em grande parte dos casos não o queria fazer, porque os amigos, os próprios pais ou familiares, se se apercebessem de tal, chamavam-nos de maricas, o que magoava muito a quem se considerava superior para trabalhar numa actividade outrora específica da mulher. E, então, havia que sair até ao café, ler o jornal, jogar umas cartitas e beber uns copos... copos reforçados, pois, diga-se de verdade, só de pensar que a mulher estava ainda a trabalhar e ele a descansar... por não saber executar a tarefa, por má vontade, incapacidade ou fosse o que fosse... ela trabalhava... e ele descansava. Éra uma desumanidade masculina a toda a prova.
E depois?
A princípio, tudo foi bem, mas com o tempo, saturou. A mulher queixava-se, ralhava, barafustava, entrava em stress, ia ao médico... Ele, não aguentava a pressão; e, também, não queria dar o braço a torcer. Mas, acabava por ter de ir ao médico também.
A mulher, cansada e amargurada, não lhe dava as atenções a que ele estava habituado... e também não as recebia... Sentia-se mal, e começava a ter pensamentos esquisitos acerca do marido. E o pior é que, na maior parte dos casos, tinha razão. Ele começava a achá-la distante... e chata... E como ainda tinha tempo para as suas saídas e distracções... não conseguia dar valor ao seu cansaço e indisposição. E acabava por ir, então, procurar outra que o atendesse... mais livre... ajeitadinha, despreocupada, pois... quem sabe? Talvez fosse essa a sua única profissão. Mas ele não se ralava, ou fingia não ralar, o dinheiro chegava, a casa que esperasse. E não lhe fazia diferença nenhuma, era mais mulher... menos mulher. E despistava, ou tentava despistar a situação. E, enquanto que em casa a mulher aguentasse todas as torturas, tudo bem; de contrário, trocava-se pela outra... e pronto. Depois, se a outra não servisse... voltava-se para casa e estava feito.
A mulher, ao ver-se trocada, desfazia-se em lágrimas, e até ia atrás dele para não ficar sozinha... pensava nos filhos, na sua reputação...
Ia!... Esta minha descrição já está realmente ultrapassada. Apresentei-a, apenas, para contar todo o desenrolar da história. Isto acontecia no princípio da mudança, quando a mulher estava a iniciar o trabalho extra-lar. Agora, tudo é um tanto diferente, mas ainda muito mais perigoso e muito mais baralhado. Veremos porquê!...

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

domingo, 29 de junho de 2008

FÉRIAS REPOUSANTES!

Os dias continuam instáveis e motivadores de insegurança, mas a época é de férias! De uma ou outra forma devem ser bem aproveitadas! O ano é longo! O modo de viver cada vez mais difícil! É urgente recuperar forças! Forças físicas, morais, espirituais, todas as forças que nos comandam a vida no todo indivisível que cada um de nós é.
É imperativo que nos disponhamos a aprender a fazer férias repousantes.
As dificuldades sentidas nas bolsas das pessoas é grande! Enquanto se assiste a um aumento desmedido das fortunas já avultadas de meia dúzia de indivíduos em detrimento dos demais que estão cada vez mais pobres e com menos poder de compra, e muito menos do desejado encontro de alguns momentos aprazíveis de lazer, afigurasse-nos que esta época trará muito desencanto e desilusão. Temos que ser engenhosos para sairmos da crise o menos magoados possível.
Somos seres sociais por excelência, mas para aprimorar essa nossa faculdade não precisamos de procurar o ruído ensurdecedor de uma cidade engalanada! Bastar-nos-á o silêncio tranquilo de uma praia semi-deserta onde a frescura das ondas nos delicie o corpo e o canto do mar e das gaivotas nos enleve o espírito! Ou... por que não o desbravar dos montes maravilhosos que nos circundam, onde a brisa suave que balança as folhas enamoradas da doçura do sol nos acaricia o rosto, os passarinhos nos mimam com os seus chilreios e a mãe terra nos presenteia com tantas flores silvestres que nos deliciam o olfacto e preenchem o olhar?
Tanta beleza perdida... na busca de felicidades momentâneas que cansam em vez de dar repouso; nos atraem para fora de nós quando é urgentíssimo que olhemos bem dentro de nós mesmos onde geraremos ou não a felicidade; nos esvaziam bem as carteiras... e deixam ainda mais vazios os corações!...
Na ânsia desmedida de viver, acabámos por perder os melhores momentos da vida, porque não procuramos os lugares de silêncio acolhedor que promoverão o sossego, o descanso, a descoberta, a simplicidade, o sentido de estética, a imaginação, o amor à vida, a solidariedade, a partilha, a recuperação de energias, o verdadeiro encontro (connosco próprios, com o Infinito, com a família, com os amigos, com a natureza), a serenidade e a paz!
Não tenhamos ilusões! Os barulhos desnecessários baralham-nos! Temos que aprender a viver com o que temos, mas se tivermos possibilidade de escolher... que tenhamos a coragem de enveredar por algo que nos proteja e dignifique.
Santas férias!
A publicar no Notícias de Cambra
Hermínia Nadais

terça-feira, 24 de junho de 2008

A MULHER E O TRABALHO



Estávamos na época da decadência da agricultura de produção extensiva, único meio de subsistência da quase totalidade da população.
As actividades agrícolas começavam muitas vezes antes do romper da aurora e terminavam muito depois do pôr do sol. Árduas e pouco lucrativas, levadas a cabo num ambiente socializante, cheio de calma e alegria, perdidas na grandeza incomensurável das nossas aldeias, já não eram modo de satisfação para as necessidades da vida de ninguém.
A emigração, sempre presente na vida das gentes das nossas terras, e que as levava para "além do mar", começou agora a fazer-se, massivamente, mas para a Europa.
Para os que não enveredassem por esta louca aventura, estava chegada a hora da grande acorrência ao trabalho fabril, o outro recurso imediato a ser aproveitado pelos agricultores.
E então, os homens e mulheres que outrora trabalhavam lado a lado sob um brilhante Sol doirado e escutando os cantos suaves das avezinhas na estonteante beleza campestre, eram agora drasticamente separados pela distância assustadora de centenas e milhares de quilómetros, ou, então, pelo ruído ensurdecedor da maquinaria industrial, entre as paredes frias das fábricas que lhes garantiam os recursos de vida.
A mulher deixou de ser a "florzinha de estufa"; o "objecto de adorno ou prazer"; a "procriadora"; a "dona de casa"; a "protegida"... para não ser tocada por ninguém; ou... a "escarnecida" e "humilhada", que para nada mais servia do que para servir o homem e ser sua escrava e da família. Foi-lhe concedido o direito à instrução que até ali lhe havia sido negado, por ser julgado desnecessário. Agora, ela precisava de aprender como o homem, pois, tal como ele, tinha de enfrentar as rivalidades sociais e o mercado de trabalho.
Por força da tradicional distribuição de tarefas entre homem e mulher, esta, passou a ter uma vida profissional dupla, fazendo em casa toda a lide doméstica e exercendo ainda uma outra profissão. Ora, esta nova situação social alterou radicalmente a maneira de pensar e estar na vida tanto do homem como da mulher.
A meu ver, está aqui a génese de quase toda esta problemática sem limites com que a sociedade actual se defronta.
Até ali, o homem sempre teve mais ou menos possibilidades de ter grupos de amigos e ir além da localidade onde vivia, mas a socialização da mulher limitava-se à pequena comunidade do lugar, aldeia ou freguesia. A religião dava opiniões favoráveis para protecção à família e incitava à compreensão e aceitação das dificuldades que fossem criadas, principalmente à mulher. Na escola, o menino e a menina eram separados, por salas ou por carteiras, e nem nos recreios podiam brincar juntos. Os meios de Comunicação Social eram escassos e inseguros. As pessoas conheciam-se bem e tentavam respeitar-se mutuamente. Tudo era favorável a um ambiente de resignação no sofrimento, de aceitação de sacrifícios, de respeito... mas, neste caso, mais da mulher pelo homem... procedimento este que ainda hoje nos tenta perseguir e que com muita realidade podemos apelidar de aberração.
Ora, esta vidinha da mulher transformou-se por demais. Ela iniciou a sua actividade fora da comunidade de origem, familiares e vizinhos... Pode conhecer novos amigos, ouvir opiniões diferentes do habitual, alargar os seus conhecimentos... ver!... e ser vista!... observar!... e ser observada!...
Na escola ou na fábrica, em casa ou na sociedade, ao lado do homem, a mulher mostrou inúmeras capacidades de trabalho e resistência nas tribulações. Estas vivências foram favoráveis ao seu desenvolvimento pessoal e realização profissional em que lhe é concedido reconhecido mérito.
Agora, deixemos para a próxima uma análise mais profunda de todas estas situações, para ver o que poderemos aprender com elas... porque... a vida é uma escola!

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A “Feira” de Santo António!


Gosto muito da minha cidade, mas detesto confusões. Então, quando há confusões na minha cidade... tento a todo o custo desviar-me dela para não me meter nas suas confusões. Porém... como para quase tudo é preciso ir à cidade... às vezes não há como fugir. Assim, acabei mesmo por visitá-la na sua época mais turbulenta, as Festas de Santo António.
Já na preparação do evento achei graça ao desenrolar apressado de todas as obras com o tempo do avesso a não dar jeito nenhum aos trabalhadores que tiveram de se atarefar por demais para terem tudo pronto na hora aprazada. A esta parte, e graças às minhas fugas, acabei por não sentir muito na pele o terrível sufoco da falta de estacionamento... já habitual... agora acrescido da falta de espaço que as super-citadas obras, sem dó nem piedade, retiraram à cidade.
Ainda durante a referida preparação, numa passagem pelo Santuário do “Rei” das festas, o Santo António, como é óbvio, tive que atravessar a avenida principal. Acreditem que senti saudade do tempo em que as feiras dos nove e vinte e três eram feitas ali... pois os numerosos comerciantes apinhados no centro da via pareciam-me muito mais estarem numa feira do que numa festa. Claro que pagam bem a estadia... e toda a gente precisa de ganhar a vida... mas bugigangas e mais bugigangas... num período de tantas dificuldades financeiras... enfim!
Não sei bem como isto tudo irá terminar. Durante estas noites a cidade tem-se enchido de gente, umas noites mais, outras menos! Amanhã é a noite das marchas, espero que cantem as maravilhas do Santo e a devoção que lhe tem o nosso povo, como é habitual. Mas a verdade verdadinha... com toda a certeza... é que na tarde do dia 13... celebrar-se-á uma Eucaristia e realizar-se-á uma Procissão em honra do Santo... e o resto... será feira... muita feira... com as representações de muitos artistas, comes e bebes, distracções e brincadeira! E chamamos a isto Festas de Santo António!
Não tenho nada contra as festas. E penso mesmo que o Santo Antoninho deverá ficar muito feliz por ver toda esta gente assim, satisfeita, mas que para ele pouco vai sobrar... é uma certeza!
Um acto solene como este, a Festa do Padroeiro, deveria mexer profundamente no nosso interior, no sentido de aprendermos a viver com mais aprumo no nosso comportamento moral, espiritual e humano. Será que é o que vai acontecer? Dependerá de todos nós!
Aproveitemos toda esta alegria contagiante para nos tornarmos pelo menos um pouco mais parecidos com Santo António!
Certos de que um Santo triste é um triste Santo, sejamos “santos alegres”! É a única forma de tornarmos Vale de Cambra bem maior e mais próspera e do Santo António ficar muito mais feliz com todos nós!
Que Ele esteja sempre presente na nossa vida para nos ajudar a sermos o que realmente devemos ser em toda e qualquer circunstância!

A publicar no Notícias de Cambra
Hermínia Nadais

terça-feira, 10 de junho de 2008

Armas da luz!...


Os distúrbios ambientais que a natureza nos vai proporcionando com todas as suas forças incontornáveis não retiram dos nossos olhares as belezas do mundo em que vivemos, cada vez mais fascinantes.
É bem fácil perdermo-nos na real vastidão dos continentes e na imensidão dos oceanos, mas o aperfeiçoamento dos meios de transportes e comunicações sociais aliados à implementação da informática aproximam e mostram de tal forma todos os recantos do planeta que cada vez se nos apresentam mais familiares e num mundo cada vez mais pequeno.
Nenhuma criatura normal imaginaria, há uma centena de anos, que veículos tão sofisticados pudessem rodar sobre a terra e cruzar os mares e os céus tão rapidamente encurtando tantas distâncias e unindo tantos povos!... Também era difícil, até há bem pouco tempo, prever que seria possível falarmos a olharmo-nos mutuamente em tempo útil a tantos milhares de quilómetros de distância... o que é uma realidade actual.
Parados no nosso espaço circundante e de olhos no pequeno écran descortinamos o mundo... o mundo em que os homens se movem através das imagens e o mundo dos homens em si mesmos na observação atenta e cuidada das palavras e gestos que denunciam claramente os seus comportamentos interiores e exteriores! E se nos colocarmos frente ao monitor e de mãos no teclado... quantas aprendizagens, quantas imagens, quantos pensamentos, quantas mensagens, quanto carinho, quanta ternura, quanto bem-querer, quanta satisfação, quanto crescimento social, moral e humano!...
Queixamo-nos muitas vezes das maledicências humanas, e temos a certeza que elas existem, pois os seres humanos são homens e mulheres livres que têm tentações difíceis de superar, não são anjos e não podem viver como tal.
Conscientes destas realidades, porque nos prendemos tanto na procura e crítica das maldades e desperdiçamos tão estupidamente as inúmeras ocasiões de enaltecer as maravilhosas qualidades e as aventurosas descobertas que saem do pensamento e das mãos humanas... para nos tornarem a vida tão mais fácil, atraente e acolhedora?
Não tenhamos ilusões! Temos que sonhar que seremos bons... e acreditar que os outros também o serão!... O sonho comanda a vida!
Com os nossos amigos e pessoas que connosco convivem, falemos da aceitação alegre e compreensiva das intempéries da vida, aprendamos a descobrir e mostrar o lado bom de um mau acontecimento, elogiemos as qualidades ao invés de apontar os defeitos.
Cultivemos a alegria e o gosto de crescer na bondade, compreensão e amor, pois essas serão, sem sombra de dúvida, as verdadeiras armas da luz que conduzirão a humanidade no caminho da harmonia, do desenvolvimento, da paz e da prosperidade.

Hermínia Nadais
In “Notícias de Cambra”

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O TEMPO DE MUDANÇA


O processo da integração da mulher na vida de trabalho fora do lar trouxe à família um sem número de problemas de difícil e remota solução.
Foi um acontecimento inadiável face às exigências das dificuldades económicas familiares sempre crescentes e que a mulher, desta forma, ajuda a superar; e também urgente para o reconhecimento das suas faculdades que são diferentes, como é óbvio, mas em nada inferiores às do homem.
Ao serem criados homens e mulheres, para poderem viver juntos harmoniosamente, foi-lhes dado o dom da complementaridade. Se são complementares, de forma alguma podem ser iguais. E é neste facto que residem as grandes diferenças. E nenhum pode, com razão, julgar-se mais que o outro. Agora, já podemos proclamar categoricamente esta verdade. Mas ainda há pouco, por meras convenções sociais e por razões alheias à vontade de cada um, era inadmissível fazer tal afirmação. Não porque alguém fosse culpado, mas porque a vida social estava talhada assim e ninguém se atrevia a modificar as coisas.
Mas, como tudo tem o momento certo, chegou a hora da mudança.
A passos lentos, a vida da sociedade foi ficando diferente, e não se sabe onde e como tudo irá parar.
Com as enormes disparidades no comportamento social de cada um, homem ou mulher, em relação a esse passado tão próximo e que nos deixou traços indeléveis e marcas muito profundas, sem um acompanhamento capaz que não podia de forma alguma existir por ser de todo impensável pelo desconhecido do desenrolar das situações, estamos a atravessar uma das piores fases de integração sócio-familiar de todos os tempos.
E, porquê?
Este tem sido tema para inúmeras reflexões, mas nunca será demais pensar de novo:
Ao longo dos tempos, através de gerações a perder de conta, a mulher foi a fiel depositária das canseiras da educação e criação dos filhos e da lide doméstica com todas as suas implicações e cuidados...
O homem, considerado o sexo forte, tratava da orientação da família e seus haveres e da angariação do seu sustento. A mulher devia-lhe obediência e respeito... e tinha de aceitar e compreender todas as suas ordens, pedidos, e mesmo as infidelidades que até eram consideradas normais... pois o homem não podia viver de um outro modo... dizia-se.
O homem andava mais nos negócios e campo, e a mulher, além do trabalho da casa, ajudava-o nessas tarefas... e ali criavam os filhos que desde cedo se habituavam àquelas canseiras. Mesmo nas famílias mais abastadas, nas grandes herdades, a cena não era muito diferente. Os grandes senhores, estavam rodeados de trabalhadores, mas viviam também dos frutos que as terras davam.
Nestas famílias, havia as mulheres serviçais a quem na maior parte dos casos era negada a constituição de família ao lado das senhoras patroas que, pouco ou nada mais eram do que objectos de adorno e procriação dos grandes senhores que as dominavam, a elas, e a todos os que viviam dentro das suas propriedades. A diferença entre estas duas condições de mulher é que, enquanto uma vivia servindo os seus patrões, a outra era servida pelos seus criados e tinha que obedecer e servir ao seu marido, senhor absoluto de toda aquela complicada sociedade doméstica.
Em qualquer dos casos descritos, era negada à mulher qualquer tomada de posição face ao que quer que fosse. A servilidade da mulher, em geral, era cega e escravizante.
Mas, os campos e as pequenas comunidades artesanais começaram a não assegurar a sobrevivência dos que deles viviam e foram cedendo lugar ao aparecimento de novas indústrias onde os homens arranjavam emprego deixando as mulheres nas tarefas de casa e amanho da terra. Juntavam os seus proventos, mas não eram o suficiente.
A hora de mudança de atitudes comportamentais do homem e da mulher estava iminente, não havia outro remédio.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

terça-feira, 27 de maio de 2008

Escuridão!...



Todos gostamos de ter dias felizes... mas grande parte das vezes... não obstante querermos mostrar a vida clara e transparente... ela acaba por parecer-nos uma tortuosa escuridão.
Estamos em pleno mês de Maio. Cá para os nossos lados há campos verdes ou com plantinhas a crescer por entre a escuridão da terra lavrada! Montes floridos de onde sobressai o amarelo das giestas, do tojo e da carqueja e o cor-de-rosa da urze! Algumas flores brotam nos jardins! Chilreiam passarinhos! Entretanto, as nuvens vão-se adensando no espaço teimando em esconder o Sol, em arrefecer os já longos dias, em deixar cair chuvas bastante continuadas. É a Natureza a fazer escuridão!
Noutros recantos do planeta a terra treme desmedidamente e os ventos e temporais devastam e arrasam as populações sem dó nem piedade. É a Natureza que continua a fazer a escuridão!
Um pouco por toda a parte furtam-se bens e vidas. O medo cada vez se torna mais numa constante e desoladora ameaça à tranquilidade e paz. As maravilhas da informática, em vez de serem aproveitadas como canais de aprendizagem de bons costumes e desenvolvimento e concretização de saberes muitas vezes acabam por servir a difusão de ideais perversos e subversivos. A “plebe” atropela-se na busca dos meios de sobrevivência, os senhores do mundo alargam os seus proventos vertiginosamente, os políticos são homens e mulheres com todas as qualidades e defeitos que daí advêm acrescidos daqueles que são apanágio das pessoas que se habituam a ocupar cargos de poder e chefia. Os bons costumes são muitas vezes estupidamente vistos como coisa do passado e os valores humanos e cristãos são cada vez menos frequentes. Agora, é o próprio “homem” a fazer a escuridão!
Aqui e além erguem-se e vão-se multiplicando algumas luzes a mostrar o caminho do bem... mas o nevoeiro da ilusão, que não quer deixar propagar essa luz... vai cegando os olhos de quem tem pouca força para caminhar e não encontra quem o puxe pela mão. É a falta de solidariedade a fazer a escuridão.
No meio das amarguras da vida a desilusão e o cansaço vão-nos fazendo perder as energias positivas... e quando isso acontece... é o ser que faz a sua própria escuridão e muitas vezes acaba por não conseguir sair dela sozinho!
Como tenho saudades dos Maios solarengos no corpo e no espírito... das corridas na busca das flores silvestres... dos sorrisos francos de tantos amigos leais... e do encontro comigo mesma na doce tranquilidade do trabalho simples e pouco remunerado... mas onde se sentia o aconchego carinhoso de um pai e de uma mãe unidos em corpo e alma... o amor sincero e desinteressado de um vizinho... a escuta solidária de um companheiro ou companheira!...´
Se existem amigos agora... existem... é uma verdade... mas mais do que nunca só muito bem escolhidos.
Não consigo entender como numa época de tantas luzes pode haver tanta escuridão!... Satisfaz-me o saber que cada um de nós pode ser luz... e resta-me incentivar a que cada um procure sê-lo de verdade, pois é um trabalho individual para o bem de todos!
Coragem e determinação! O mundo precisa que deitemos mãos à obra!


Hermínia Nadais


Publicada no Notícias Cambra

sábado, 17 de maio de 2008

FAMÍLIA E SOCIEDADE


Para muitos de nós é sobejamente reconhecido que uma pessoa, para o ser em plenitude, com força de vontade e auto domínio, necessita de uma boa integração familiar e social.
"Família" e "sociedade", são dois conceitos distintos e complementares, mas de certo modo iguais e mutuamente dependentes.
Quando falamos de família queremos referir-nos expressamente à chamada família nuclear, isto é, o casal e seus descendentes. De facto, é essa a primeira comunidade social de um recém-nascido, de uma pessoa. Segue-se-lhe a família alargada, ou seja, a comunidade formada pelo conjunto das várias famílias nucleares incluídas na árvore genealógica de que essa família nuclear faz parte. Muitas famílias formam uma aldeia, vila cidade... e há freguesias, concelhos, nação, nações... sociedades cada vez mais alargadas e dos mais divergentes hábitos, costumes, tradições... E, dentro dessas comunidades gerais, surgem muitas outras para a realização de cada um segundo as necessidades ou gosto pessoal: escolas, associações culturais, desportivas, religiosas, de caridade e assistência... E é um nunca mais acabar de instituições e associações da carácter social, colectividades que têm por fim a protecção, o desenvolvimento e a realização pessoal do indivíduo. À semelhança da família, cuja representação e gerência é efectuada pelo casal que a constituiu, as instituições também têm órgãos representativos e de gestão: numas esses órgãos, tal como nas famílias, são as próprias pessoas que as imaginaram e puseram a funcionar; noutras, é feita a escolha obedecendo a leis previamente estabelecidas.
Todas as instituições têm estatutos, regras de convivência social, são geridas e representadas por alguém. A família, a primeira de todas as instituições na nossa vida, tem leis de orientação e protecção bem definidas. Diferente de qualquer outra onde o elo de ligação dos associados pode apresentar múltiplos interesses, o conceito de família está assente no amor mútuo e ligado aos laços de sangue, à continuação da vida. Nenhuma outra instituição tem fim tão sublime, mas também nenhuma tem tanta responsabilidade na sociedade onde está inserida. Em qualquer outra instituição, entra quem quer ou necessita; na família, não é assim. A constituição de família, o viver em família, partilhar com alguém os desejos e ambições, faz parte de cada um de nós, é inato. É por esta necessidade de convívio e partilha de vida que há tantas famílias resultantes de ligações pouco aceites e menos habituais. Somos seres sociais, não fomos criados para viver sós. No entanto, numa família normal que é constituída livremente por duas pessoas complementares entre si, ligadas por amor, de cujo fruto nascem os filhos!... Filhos que não pedem para nascer... não têm culpa de nascer... mas, uma vez aparecidos, têm direito à vida, a uma vida digna, com amparo, protecção e orientação adequada.
Fala-se muito da protecção à família, mas quanto mais se fala em protecção, mais problemas familiares atingem a sociedade em geral. E o processo educativo das nossas crianças e jovens sofre as graves consequências dos problemas angustiantes dos pais. O caso é muito grave, gravíssimo mesmo. É caso para muita reflexão. Estou certa de que, se houvesse tempo e predisposição para pensar... muito ficaria diferente.
Queridos pais, aflitos com tantos problemas: Vamos parar um pouco para olhar profundamente as drásticas alterações da participação do homem e da mulher na vida familiar e social com as implicações que daí resultam; ver o que há de bom e mau; e, finalmente, tentar interiorizar e viver o que acharmos melhor para a felicidade de cada um de nós que será, sem dúvida, a felicidade de nós todos.

Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

quarta-feira, 7 de maio de 2008

LIBERDADE... até quando!...


Vivemos recentemente a passagem de mais um “25 da Abril” a que os portugueses se habituaram a chamar “dia dos cravos” ou “dia da liberdade”.
Qualquer destas expressões está correcta. Mas... não basta falar de liberdade, é urgente que na vida pessoal e social não se viva em anarquia.
O nosso País tem os seus filhos desterrados espalhados por todo o mundo... enquanto cá dentro abundam pessoas estrangeiras ligadas aos mais altos negócios ou mesmo vivendo de mendigagem; aumentam desmedidamente os roubos e os actos de vandalismo contra pessoas inocentes; desde os políticos e ricaços aos mais carenciados temos que ter sempre a maior atenção a toda a forma de proceder porque na maior parte dos casos não há coerência entre o que dizem e o que fazem; os valores humanos e espirituais são relegados, e assiste-se a um sem número de famílias desagregadas e a filhos cada vez mais abandonados à sua sorte ou então sumamente mimados por ambos os progenitores e seus familiares que não querem perdê-los e os compram da forma que entendem melhor; o mercado de trabalho está cada vez mais exigente e a população cada vez mais envelhecida, pois perderam-se os verdadeiros valores da vida e não há incentivos à natalidade; as igrejas estão cada vez mais desertas, porque cada vez mais se retira Deus da vida e se criam deuses à maneira humana (dinheiro, sexo, grandezas, poder); na procura de resposta para o mal estar geral os curandeiros, psicólogos e psiquiatras vêm os seus consultórios a abarrotar, quando as verdadeiras respostas deveriam procurar-se acima de tudo bem dentro de cada um na forma como encarar a verdadeira dimensão da vida e a verdadeira forma de bem viver!...
Francamente!... Chamem-lhe o que quiserem... mas isto... realmente... não é liberdade nenhuma! Quando muito... será um começo... e muito mal começado!...
Sou acerrimamente contra toda e qualquer opressão. Mas... é hora de me questionar:
- Por onde anda a verdadeira educação para a liberdade? Que tipo de vida é dada aos agentes de ensino? Como andam os currículos escolares?
E... mudando de assunto:
- Como andam as fugas ao fisco? Qual é o montante dos salários dos grandalhões... das suas pensões de reforma... e quais os míseros tostões que recebem os pobres desamparados e velhinhos? E a assistência médica às pessoas idosas acamadas ou incapacitadas de se movimentar... começa a ir o médico a casa visitá-las regularmente... ou para não morrerem à míngua terão de continuar a ter de pagar caro essa visita com os poucos proventos que têm...e caladinhas para não serem punidas? Qual o incentivo ao trabalho... e a desmotivação para a procura desregrada do fundo de reinserção social ou rendimento mínimo garantido? Qual o cuidado com a saúde laboral de tantos que são obrigados a trabalhar sem poder... contra tantos outros que já não trabalham e deveriam fazê-lo? Como vamos melhorar o processo dos empregos por “cunhas” e não por capacidades? Valha-nos a santa liberdade!!!...
Tantas coisas erradas... vão-nos retirando de ver e sentir o quanto é bom viver em liberdade... porque, viver em liberdade, é realmente muito bom! Mas... ser livre, não é, de forma alguma, ter-se tudo o que se quer e apetece... é cada um fazer tudo quanto possa para o bem comum obedecendo a regras ainda que, caridosamente, tenha de as contestar.
Até quando?!... Tanto tempo passado... e ainda estamos tão longe de sabermos viver em liberdade!... É muito bom questionarmo-nos para podermos encontrar o melhor caminho a seguir, uma vez que a liberdade é uma tão grande utopia que só existirá na medida em que partir bem de dentro de nós... do exacto cumprimento de todo o nosso dever de cidadãos portugueses e do mundo!...
Mãos à obra! Não há tempo a perder!

Prof. Hermínia Nadais
Publicada no Notícias de Cambra

quinta-feira, 1 de maio de 2008

CULTURA GERAL


Falar de cultura e sabedoria é parte integrante da linguagem do nosso tempo. O alargamento da escolaridade obrigatória implicou o desabrochar substancial da necessidade premente do aumento de instrução. A televisão, pelas mais diversas formas, traz aos nossos ambientes familiares e sociais os costumes, vivências e tradições das mais variadas civilizações. Os livros, revistas e jornais proliferam por toda a parte. Carros itinerantes com Bibliotecas Móveis vagueiam pelas aldeias mais recônditas. As acções de formação a todos os níveis são inúmeras. Em muitas localidades já são poucas as famílias que não possuem computador e Internet. Sem sombra de dúvida o nosso meio ambiente oferece-nos uma infinidade de meios que nos podem levar a um enriquecimento cultural constante, a situações que, se bem aproveitadas, podem levar a um permanente estado de aprendizagem.
Ser culto, ter muitos conhecimentos, é um desejo inato de toda a gente, pelo que apelidar de inculto pode tornar-se mesmo num dos maiores insultos.
Esta maneira de ver a humanidade pode parecer-nos descabida, pois temos por hábito pensarmos inculta ou atrasada uma pessoa que não tem cursos académicos... não tem profissão daquelas que exige indumentárias bem alinhadinhas e aspecto pessoal muito bem cuidado... não ocupa cargos de relevo nas associações comunitárias... ou não faz nada de relevante, e o nosso péssimo hábito de julgar pelas aparências... leva-nos a esquecer estupidamente que uma pessoa não vale pelo que faz ou mostra mas sim pelo que realmente é. Contudo, só conhecerá verdadeiramente a pessoa quem conseguir entrar no seu interior, e isso é apanágio de Alguém que nos transcende, que está acima de nós... o único que pode ajuizar com eficiência. Nós, seres humanos, nunca estaremos aptos a julgarmos convenientemente nem a nós mesmos... como poderemos querer fazê-lo com os outros?!...
Haja honestidade!
Todas as pessoas são importantes, cada qual da sua maneira! E quanto a saberes, cada pessoa, conforme o meio socioeconómico e ambiente familiar onde nasceu, adquiriu um certo tipo de saber, uma certa maneira de agir, uma certa forma de estar e de ser... um certo tipo de cultura.
Se analisarmos mais profundamente, chegaremos à conclusão de que há um sem número de culturas específicas de cada Continente, de cada País, de cada Província, de cada ambiente profissional... de cada tipo de lazer... de cada religião... de cada pessoa em particular! Se assim não fosse... nunca poderíamos afirmar que “Cada um de nós é único e irrepetível!”
Neste contexto, ter cultura geral é apresentar um conhecimento mais ou menos alargado dos diversos tipos de saberes existentes em cada cultura específica, é possuir uma forma de saber mais abrangente, o que leva a uma forma de estar mais segura em toda e qualquer circunstância.
Procurar ser cada vez mais culto, ter sabedoria, é partir à procura do que é transcendente para si mesmo em determinada ocasião, e que só deixará de ser transcendente, quando for bem assimilado e integrado na vida – aprendido de verdade.
Cultura e transcendência caminham de mãos dadas com todo o ser humano que, quanto mais procura o enriquecimento dos seus saberes, mais cresce de uma forma global, ou seja, no seu todo que abrange o científico, o intelectual, o humano, o espiritual. O transcendente é algo sublime, excelente, superior, importante, que está acima do ser.
Há realmente conhecimentos que nunca conseguiremos nesta estrada da vida e serão sempre transcendentes para todos nós. Mas, está provado cientificamente que o desenvolvimento do ser humano está muito abaixo das suas potencialidades normais. Assim sendo, para o homem, todo o esforço dispendido por obter a aprendizagem que ainda não conseguiu assimilar para com ela poder preencher minimamente o vazio insaciável do seu coração, será sempre a busca do transcendente.
Toda a espera é prejuízo. Mãos à obra!...

Hermínia Nadais
Publicada no “Notícias de Cambra”