
Quando afirmamos que o sonho comanda a vida estamos convictos de que encarar as situações de forma positiva é angariar razões para que do nosso meio ambiente se removam os obstáculos que nos impedem de atingirmos algo de bom, agradável, compensatório, frutuoso.
Contudo, por mais positivistas que formos, somos assaltados por momentos que nos parece que o mundo vai desabar sobre nós, sem termos por onde fugir. Nestas circunstâncias “(ir)regulares” o desenrolar do dia a dia, normalmente fácil de gerir e ultrapassar, apresenta-se-nos como um gigante avassalador e desalmado que nos afugenta, arrasa e domina.
Quando este estado de espírito é muito frequente, “regular”, quase que nem nos apercebemos… mas coitado de quem conviver connosco, pois se não nos leva ao psiquiatra vai lá parar com toda a certeza; quando é um acontecimento “irregular”, sentimo-nos completamente sós, desnorteados, perdidos, acabrunhados, inquietos e inseguros… sem capacidade de compreensão ou controle, mas apenas por algum tempo.
Em situações desta natureza apetece colocar uma espécie de óculos para que tudo nos pareça de novo cor-de-rosa… mas parando para pensar chega-se de imediato à conclusão de que nunca poderia ser assim.
Quando assaltados por estas irregularidades, urge verificarmos que nós… connosco… muito embora sejamos um único ser, uma única pessoa, somos muitas vezes como que várias figuras sobrepostas e contraditórias entre si, um todo em que o nosso querer, o saber, a vontade, a força, a sensibilidade… se cruzam e embaraçam de tal modo que nos afastam terminantemente da meta que nos propomos alcançar, fazem de nós tudo o que nunca pretendemos ser, levam-nos a realizar o que nunca pretendemos fazer e fazem-nos parecer o que intimamente não somos… factos que geram uma atitude de revolta interior muito difícil de aceitar e dolorosa de dominar.
Situações desta natureza, (mais frequentes do que possamos imaginar), são as ocasiões propícias para podermos afirmar com toda a certeza que o nosso maior inimigo somos nós mesmos. Sentirmo-nos mal, desprezados e aniquilados, quando a razão do nosso mal estar se deve ao mau comportamento de alguém, é compreensível e aceitável; mas quando verificamos que a verdadeira causa dos nossos tumultos está nós, na dificuldade de aceitarmos e gerirmos as nossas emoções, quando descobrimos a certeza das nossas (in)culpabilidades que urge assumir, a situação torna-se muito mais penosa, difícil e constrangedora. E então temos que reunir todas as nossas forças para, numa batalha atroz, sangrenta e invisível, conseguirmos descobrir mais profundamente quem somos e como somos para podermos controlar, ainda que minimamente, os nossos distúrbios emocionais e podermos voltar à nossa normalidade.
Se nos olharmos assim, tal qual somos, tornaremos a vida mais fácil, para nós e para os outros… não com óculos cor-de-rosa, mas com o nosso “ser pessoas” com toda a verdadeira força que a expressão encerra.
Hermínia Nadais
A publicar no "Notícias de Cambra"