quarta-feira, 27 de maio de 2009

A mão em seara alheia


Estamos num ano de eleições... numa época dita de democracia... num país dito democrático!
Todos os políticos se dizem democratas; alguns cidadãos e cidadãs vociferam contra a crise de bolsos recheados sem saber que fazer à massa; muitíssimos contam tostões para comprar o mínimo indispensável sem aumentar as dívidas no final do mês (de boquinha bem fechada pela vergonha das suas verdadeiras necessidades); a maior parte da população brinca aos papagaios... reclama contra tudo e contra todos por tudo e por nada!... Situações normalíssimas numa sociedade normal. Contudo, podemos enumerar algumas atitudes adequadas e pertinentes.
Falar de democracia prevê políticos eleitos pela livre vontade do povo para defender os legítimos interesses dos eleitores - povo. Enquanto os cidadãos e cidadãs que querem ser eleitos se esfalfam a aprimorar a apresentação dos seus partidos e a mostrar as suas maiores virtudes nas suas mais maravilhosas qualidades de liderança, os eleitores não podem de forma alguma continuar a manter-se passivos à espera que os seus interesses apareçam resolvidos! Será muito mais lógico que todos se inteirem convenientemente das verdadeiras normas por que se regem os diversos partidos e prestem a maior atenção à idoneidade das pessoas que os representam como forma de averiguar a possibilidade de uma verdadeira eficácia no cumprimento dos princípios inerentes a cada um; que com perspicácia e dignidade cada cidadão ou cidadã pense no que mais interessa à prosperidade e conforto de toda a sua comunidade envolvente; que quando já consciente das suas convicções partilhe as suas opiniões com as pessoas ou grupos do seu relacionamento habitual no sentido de consolidar mais eficazmente a escolha a apresentar no “sagrado” momento de voto, pois não devemos votar de um modo qualquer, mas com consciência, liberdade e responsabilidade.
Os que procuram ser eleitos, com o desenvolvimento informático a minar cada vez de forma mais perfeita acelerada e eficaz tudo quanto se diz ou faz, se faz sem dizer ou se diz e fica por fazer, têm que ser pessoas realmente honestas e capazes, sem nada que lhes acuse a consciência, pois de contrário terão a sua missão cada vez mais complicada, e poderão até vir a ficar com as finanças remediadas mas com as caras tão envergonhadas que eu não lhes queria estar na pele!... Pessoalmente louvo a coragem de quem consegue sujeitar-se a assumir uma candidatura com todas as suas implicações, e no meio de tudo o que há por aí, menos bom e melhor, penso muito na grandeza de toda esta gente.
Há comportamentos capazes de afligir qualquer cidadão: o silêncio sepulcral e avassalador de uma boa tomada de posição e a crítica exagerada das situações erradas.
A opinião pública acaba por influenciar positiva ou negativamente. E se em vez de rebaixar e desmotivar pelo que está realmente mal descobríssemos formas possíveis de incentivar e apoiar o que consideramos certo?!... Criticar... é mais fácil! Mas para atenuar situações erradas nada melhor do que louvar boas atitude e lembrar soluções práticas propícias e viáveis, pois tratando-se do bem-estar social ninguém deve pensar em guardar “louros” para si próprio mas em proporcionar o bem comum.
Façamos o que devemos fazer... para mais tarde não nos virmos a arrepender!...

Hermínia Nadais
A publicar no “Notícias de Cambra”

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Não sei! Talvez... ninguém.


Fala-se muito na vida, mas parece que cada vez se compreende menos o que seja esse imenso mistério. Debruçando-nos um pouco sobre o seu raiar, acabamos por concluir que a razão da sua existência é o amor. O Alguém que um dia a extraiu do nada... fê-la num acto de amor tão infinitamente grande que se tornou incomensurável a qualquer peso ou medida humana. E é assim que o reaparecimento de qualquer vida vai surgindo através dos tempos, numa interligação e cooperação constantes entre os seres criados e o seu Criador.
Os seres vivos não aparecem ao acaso, pois a cada ser, naturalmente, foi dada a potencialidade de cooperar na conservação da sua espécie, transmitindo a vida. Ao falarmos de fecundidade, podemos não ter intenção, mas evocamos um relacionamento íntimo entre dois seres, (ou então, entre duas componentes de um mesmo ser, no caso da maior parte das plantas e dos animais hermafroditas). Um relacionamento íntimo fecundo só acontece num acto “chamado” de amor, embora nem sempre o seja. Sabemos que há relacionamentos de mero prazer para os dois intervenientes, o que, seja qual for a razão apontada, é prostituição; também os há onde um dos parceiros é impelido pela força, o que apelidamos de violações. Em qualquer destes casos, que não são actos de amor verdadeiro mas de corrupção do verdadeiro amor, podem surgir vidas, e embora os casos desta natureza sejam acontecimentos aceites com normalidade, são sempre acontecimentos anormais.
Agora, uma salvaguarda de muitas situações... talvez de todas as situações consideradas anormais, quem sabe?!...
Ao falarmos de vida, esquecemos instintivamente todos os outros seres vivos e quedamo-nos no ser humano, e isto porque o homem foi designado como o centro de toda a criação e é o único ser que reconhece (ou pode reconhecer) a verdadeira razão da sua vida e da vida de todos os outros seres que nele convergem e para ele existem. Mas, cada homem é um enorme e desconhecido mundo dentro do mundo que conhecemos.
Dizer que cada homem é um mundo desconhecido poderá parecer uma afirmação muito forte e descabida, mas não. Vivemos rodeados de gente, de família, de amigos, de conhecidos... e por mais que nos esforcemos para mostrar ou esconder o que somos e manter um bom relacionamento mútuo... o bom relacionamento pode realmente existir, mas o perfeito conhecimento do outro... nunca. Ouvem-se muitas vezes frases como esta: “Tal” ou “tal” pessoa... eu, conheço-a muito bem. Quando escutamos esta afirmação feita com tanta certeza, a única conclusão a que poderemos chegar é que há ali muita amizade, carinho, compreensão, entendimento, cumplicidade... sei lá o que mais!... Mas, mesmo que haja tudo isto na maior transparência possível, ninguém é capaz de penetrar no interior de ninguém, por muito querido que seja. Por muito que saibamos de cada uma das pessoas mais chegadas a nós, não tenhamos ilusões, porque o seu melhor ou pior estará para sempre mergulhado no infinito oceano de si mesmo, local que só estará permanentemente aberto ao Criador dessa obra prima, única no mundo. Cada vida humana é como que um poço encantado, infinitamente belo e profundo, de onde deveriam eclodir vulcões com larvas de amor incandescente pronto a incendiar os outros mundos por que é rodeado. Mas, como poderemos ter a sensação de conhecer o íntimo dos outros, se passamos a vida a explorar como somos, quem somos e para que vivemos, e andamos tantas vezes baralhados? Até as pessoas que pensam conhecerem-se muito bem a si próprias, apanham cada desilusão...
Tentemos descobrir os nossos defeitos, para os corrigir; as nossas qualidades, para lhe dar novas dimensões; acolhamos os outros tal como são, sem críticas ou desprezos, pois se nós, falhando tantas vezes aos compromissos que assumimos, não conseguimos ser senhores e donos de nós mesmos... como poderemos ter coragem para criticar quem quer que seja tentando fazer juízos de valor aos seus comportamentos? Quanto mais conhecimento tivermos das nossas fraquezas melhor aceitaremos as fraquezas dos outros e mais preparados estaremos para fazer correcção fraterna.
Que mistério é a nossa vida! Quem será capaz de compreender, em absoluto, o mistério e a grandeza da vida do homem? Não sei! Talvez... ninguém.

Hermínia Nadais
Publicada no “Notícias de Cambra”

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Na “Pérola” do Oceano!


Quando se chega a uma terra olhámo-la rápida e sofregamente de modo a abarcar de imediato tudo quanto é permeável aos sentidos… deixando os pormenores para depois! Tenho que admitir que, de cada vez que venho à Ilha da Madeira… lhe descubro mais encantos.
Por entre o aglomerado das habitações emersas do florido maravilhoso dos jardins povoados de árvores gigantescas e frondosas alternadas com arbustos encantadores, quando no lento desbravar da ladeira deixo de ouvir o marulhar das ondas e de sentir o cheiro a maresia já me encontro perdida, algures, imersa na esplêndida verdura dos matagais e extasiada com o odor provindo das florestas floridas.
Por todo o lado a beleza é estonteante: as piscinas naturais de Porto Moniz; o tão falado cabo Girão; a Calheta; Câmara de Lobos; o Curral das Freiras; S. Vicente; Santana e as suas casinhas; o Pico do Areeiro, ponto mais alto da Ilha, uma janela para o mar;
as pequenas ou maiores povoações dispersas como encantadores canteiros de jardim; e os barcos, no cais, que dão a ideia de um enorme circo ladeado por um gigantesco anfiteatro – a belíssima cidade do Funchal.
Por toda a parte, conduzidas por mãos sábias, experientes e certeiras, as viaturas aparecem e desaparecem velozes, ora nas vias rápidas e túneis que minam toda a Ilha encurtando distâncias, ora nas inúmeras pequenas vielas altamente íngremes e tortuosas cheias de inúmeros e esplendorosos mirantes e quase todas ladeadas de um florido harmonioso e cativante.
Homens e mulheres vagueiam por todo o lado tratando calma e habilmente do conforto e beleza do espaço: uns nos planaltos e montes onde as plantas e animais crescem livremente ofertando beleza e riqueza; outros alindando carinhosamente as ruas e jardins públicos que primam pelo requintado colorido, bom gosto e simplicidade; e ainda outros tornando os pequenos cantinhos de cultura agrícola ou ajardinada que ladeiam as moradias mais dóceis às plantas que ali orgulhosamente reproduzem e crescem frente aos olhos sedentos da sua beleza e às bocas ávidas dos sabores dos seus frutos.
Bem do meio das encostas sobranceiras a Machico e Santa Cruz… bem amiúde… um enorme alarido atroa os ares e convida a olhar o enorme campo onde as gigantescas aves transportadoras aterram e levantam, lá bem no fundo, onde a terra roubou espaço ao mar interligando-se mutuamente numa atraente cumplicidade que se deseja eterna.
A cidade e a aldeia, o mar e o monte, a montanha e o vale, o planalto e a encosta, as fajãs e a zona costeira tão irregular mas firmemente definida, o calmo bater dos ondas e o burburinho da cidade, tudo se encontra tão intimamente unido e intrínseca e calorosamente fundido na extraordinária encantadora e inigualável beleza deste paraíso celestial que é impossível distinguir algo que demarque o que quer que seja dos seus verdadeiros contornos!…
Aqui é fácil perdermo-nos das realidades da vida e lançarmo-nos num mundo de sonho permanente a partilhar aqui e além com os naturais da ilha que, cada qual do seu jeito, vão dando forma a toda esta pitoresca e acolhedora harmonia.
Não há dúvida quanto aos extremosos cuidados do Criador no fabuloso esmero de toda a Ilha, mas muito especialmente da zona de “Santa Cruz”… para mim… a menina dos seus olhos!

A publicar no “Notícias de Cambra”
Hermínia Nadais